O candidato do Partido Social Democrático à Presidência, Ronaldo Caiado, levou a Campinas, no interior de São Paulo, a agenda que tem organizado sua campanha em 2026: segurança pública com endurecimento penal. Em 22 de agosto, o ex-governador de Goiás fez sua primeira agenda oficial na cidade, participou do lançamento da candidatura de Carlos Sampaio, também do PSD, a deputado federal, e depois se reuniu com prefeitos da região para tratar de investimentos em infraestrutura e de combate ao crime organizado. Dois dias depois, a mesma candidatura era destrinchada em texto explicativo sobre onde ela se situa no espectro político.
A cobertura de centro ficou no registro da agenda e reproduziu as propostas nas palavras do próprio candidato. Caiado afirmou que pretende declarar as facções criminosas como organizações terroristas, promover uma mudança completa no sistema penitenciário e construir mais 40 penitenciárias, além de apoiar as estruturas estaduais para que as facções não sigam dominando a vida das pessoas. Disse ainda que, se eleito, investirá em inteligência artificial para combater a violência.
Veículos de esquerda ampliaram o enquadramento para a trajetória do candidato. Médico ortopedista e produtor rural, Caiado começou a vida pública nos anos 1980 à frente da União Democrática Ruralista, entidade criada para representar interesses de grandes proprietários de terra, e tornou-se uma das principais vozes contra as propostas de reforma agrária discutidas na Assembleia Constituinte. Cumpriu cinco mandatos de deputado federal, foi senador, disputou a Presidência em 1989 e governou Goiás por dois mandatos, passando por PFL, Democratas e União Brasil antes de se filiar ao PSD, cuja presidência nacional, ocupada por Gilberto Kassab, dá a vice da chapa.
Os dois recortes convergem no essencial. O PSD se apresenta como legenda de centro, mas o candidato constrói a campanha sobre pautas historicamente associadas à direita brasileira. O plano de segurança, batizado de Operação Reconquista, reúne legislação específica contra o crime organizado, redução da maioridade penal, confisco de bens de condenados por determinados crimes, integração das polícias e controle tecnológico de fronteiras. Na economia, o candidato defende limitar o crescimento das despesas federais a uma faixa entre 40% e 50% da expansão do Produto Interno Bruto, fazer reforma administrativa, combater supersalários e ampliar parcerias com o setor privado, relacionando o aumento do gasto público à manutenção de juros elevados. Ao mesmo tempo, não propõe corte indiscriminado de benefícios e já se posicionou contra desvincular as aposentadorias do salário mínimo. Apoiou Jair Bolsonaro em 2018, rompeu com ele durante a pandemia de Covid-19 por divergências sobre a condução da crise sanitária, sustenta posições favoráveis à vacinação e ao Sistema Único de Saúde e, ainda assim, promete anistia ao ex-presidente e aos condenados pelos atos de 8 de janeiro.
A divergência está no que cada lado escolhe iluminar. A cobertura de esquerda ancora a leitura na origem ruralista e no confronto com a reforma agrária, tratando o pacote penal como agenda de encarceramento e a promessa de anistia como revisão de responsabilidades pelo 8 de janeiro. A cobertura de centro não faz esse julgamento e deixa as promessas sem contraponto, sem custo estimado e sem avaliação independente. Veículos de direita não registraram o episódio no conjunto analisado; nesse campo, o eixo de discussão costuma ser a comparação entre a gestão de segurança em Goiás e o desempenho federal, além da disputa por quem representa a alternativa conservadora ao PT.
O que ainda não se sabe é quanto custam e em quanto tempo sairiam as 40 penitenciárias prometidas, com que base jurídica facções criminosas seriam enquadradas como terrorismo, e como a expansão prisional se concilia com o teto de despesas defendido pela própria campanha. Também não está esclarecido que apoios partidários a chapa reunirá até o fim do período eleitoral.