A defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro protocolou no Supremo Tribunal Federal, na segunda-feira 20 de julho de 2026, um agravo regimental para derrubar a decisão que suspendeu por 90 dias as visitas do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro ao pai. O ex-presidente cumpre em prisão domiciliar pena de 27 anos por liderar tentativa de golpe de Estado. A restrição foi assinada pelo ministro relator em 13 de julho, dois dias depois de o senador ler, em transmissão ao vivo na internet, uma carta escrita pelo pai em apoio à sua pré-candidatura. Para o relator, houve desvio de finalidade no direito de visita e novo descumprimento da cautelar que proíbe o condenado de usar redes sociais, diretamente ou por meio de terceiros.
Toda a cobertura converge nos fatos processuais. Em 17 de julho, a prisão domiciliar foi mantida, mas as vedações foram ampliadas: visita de familiares suspensa por 30 dias, contatos políticos vetados até as eleições de outubro e proibição de divulgar novos manifestos. No recurso, os advogados pedem primeiro a autorização das visitas na condição de familiar, alegando que a preservação dos vínculos familiares integra a finalidade da execução penal. Caso isso seja negado, pedem que o contato seja garantido na condição de advogado, já que o senador está formalmente constituído na defesa. Em último caso, querem que o recurso seja submetido à Primeira Turma. O prazo da suspensão termina em 11 de outubro, depois do primeiro turno, e todos os relatos registram o efeito sobre a articulação da candidatura.
É na leitura dos motivos que a cobertura se divide. Veículos de esquerda enfatizaram a reincidência: o próprio relator lembrou que, em agosto de 2025, pai e filho já haviam ignorado a proibição de redes sociais durante ato no Rio de Janeiro. Nessa chave, a restrição é consequência, não perseguição. Uma reportagem desse campo foi além do processo e examinou como se construiu a imagem religiosa da família, descrevendo o apoio articulado de lideranças evangélicas de grande alcance em 2018 e o esforço atual do senador, batizado quatro vezes, para herdar esse capital político. Uma coluna de opinião no mesmo campo afirmou que o comportamento golpista do pai se repete no filho e antecipou que ele não reconheceria uma derrota nas urnas, conclusão que o texto não sustenta com declaração do senador.
A cobertura de centro se ateve à peça processual e ao calendário eleitoral, reproduzindo os argumentos da defesa entre aspas e sem qualificá-los. Foi por esse caminho que apareceram os dados adjacentes: um levantamento estadual feito entre 15 e 20 de julho, com 1.188 entrevistados no Piauí e margem de erro de 3 pontos, apontou o senador como o líder político mais rejeitado no estado, com 57,5%, seguido pelo pai, com 56,5%. Também de fonte de centro veio o impasse da chapa: uma senadora ex-ministra recusou o convite para ser vice, alegando que pretende disputar a presidência do Senado em 2027, e a convenção que deve confirmar a candidatura foi marcada para 25 de julho, em São Paulo, sem vice definido.
Veículos de direita não cobriram este recorte com destaque no material reunido, o que caracteriza um ponto cego. A leitura provável desse campo está inteira na peça da defesa: a medida seria desproporcional por atingir ao mesmo tempo o convívio familiar e a escolha do defensor, num prazo que se estende para além do primeiro turno e restringe um pré-candidato à Presidência. O acionamento da entidade máxima da advocacia reforça esse argumento. Na mesma direção, a fala do senador em evento com diplomatas em Brasília, em 21 de julho, pedindo o maior número possível de observadores internacionais, seria demanda por transparência. Ele ressalvou ali que não questionava o sistema de votação brasileiro, embora tenha associado as urnas do país a uma empresa venezuelana, vínculo negado em nota pelo tribunal eleitoral desde 2020.
O que ainda não se sabe é o principal. Não há decisão sobre o agravo, nem prazo definido para o relator ou a Primeira Turma se manifestarem. Também não se sabe se a comunicação entre o senador e o pai será liberada na condição de advogado. E segue em aberto quem ocupará a vaga de vice na chapa, a poucos dias da convenção.