O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou no sábado, 22 de agosto, que mantém o apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL) na disputa pela Presidência da República e, ao mesmo tempo, reconheceu que sua campanha à reeleição busca votos de eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A declaração foi dada durante visita à Usina Pedreira, na região sul da capital paulista, em meio a uma sequência de compromissos eleitorais que incluiu o lançamento da candidatura de Regina Nunes (MDB) a deputada estadual, uma viagem a Ribeirão Preto e um encontro com Flávio Bolsonaro à noite, em Barretos.
Na fala que deu origem à cobertura, o governador afirmou que sua ideologia são as pessoas e que o objetivo do governo é levar política pública para quem aprova e para quem não aprova a gestão. Em seguida, admitiu que acaba capturando também votos de pessoas que estão pensando na Presidência da República no outro candidato, mas emendou que estará junto de Flávio Bolsonaro e acompanhará a trajetória do senador na campanha.
Os dois lados que cobriram o episódio convergem no essencial. Ambos reproduzem as mesmas frases do governador, registram a defesa da presença dos presidenciáveis nos debates televisivos e trazem os números da pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira, 21 de agosto, que apontou 45% das intenções de voto para Tarcísio de Freitas e 27% para o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad na disputa pelo governo paulista. A cobertura de direita acrescentou o cenário de segundo turno, com 54% a 35%, e informou a ficha técnica do levantamento: 1.610 eleitores ouvidos em 65 municípios nos dias 18 e 19 de agosto, com margem de erro de dois pontos percentuais e 95% de confiança.
A divergência está no que cada lado escolheu contar em volta da fala. A cobertura de centro situou a declaração dentro de um cálculo eleitoral em curso: relatou que o governador tem dito a aliados que sua campanha detectou eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva dispostos a votar nele, que vem modulando o discurso e evitando falar de 2030, e que mantém o que um aliado descreveu como distância segura de Flávio Bolsonaro desde que veio a público a relação do senador com o empresário Daniel Vorcaro, preso no âmbito do caso Master. Esse mesmo texto lembrou que, na quinta-feira anterior, o governador minimizou a falta de apoio dos partidos do Centrão ao aliado, disse confiar na segurança das urnas e classificou o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal como instrumento válido, desde que sem personalização do debate, numa referência implícita ao ministro Alexandre de Moraes.
Já veículos de direita publicaram uma versão enxuta do episódio, centrada no pragmatismo do governador, na parceria com prefeitos de partidos diferentes e na vantagem numérica sobre Fernando Haddad. Ficaram de fora o vínculo entre a campanha presidencial aliada e o caso Master, a posição sobre o impeachment de ministros da Corte e a ausência do Centrão no palanque de Flávio Bolsonaro. Até o momento, nenhum veículo de esquerda cobriu o episódio, de modo que não há registro no material analisado de como esse campo enquadraria a declaração.
O que ainda não se sabe é se o duplo movimento se sustenta até o fim da campanha. Nenhuma das coberturas ouviu a campanha de Fernando Haddad, o PT, o PL ou a própria campanha de Flávio Bolsonaro sobre o recado do governador ao eleitorado adversário. Também não há informação sobre quantas agendas conjuntas com o senador estão previstas, sobre o desdobramento do caso Master para a corrida presidencial nem sobre a decisão final de Luiz Inácio Lula da Silva e de Flávio Bolsonaro quanto à participação nos debates televisivos.