O Tribunal Superior Eleitoral concluiu a portaria 463, o conjunto de regras que as plataformas digitais terão de seguir para conter riscos ao processo eleitoral de 2026. A norma obriga empresas com mais de 5 milhões de usuários ativos no Brasil a apresentar um plano de conformidade descrevendo como vão combater a desinformação, o uso irregular de inteligência artificial e comportamentos inautênticos coordenados durante a campanha. Entre as obrigações estão salvaguardas para impedir que chatbots emitam opinião de voto ou gerem violência política de gênero, além de mecanismos para verificar a identidade de anunciantes.
Até o momento, apenas um veículo detalhou a comparação entre a minuta original e a versão final do texto, relatando duas mudanças centrais. A primeira é a concentração de decisões na presidência do Tribunal, cargo hoje ocupado pelo ministro Kassio Nunes Marques, que também integra o Supremo Tribunal Federal e foi indicado por Jair Bolsonaro. Segundo a apuração, as menções à presidência ou ao presidente do TSE saltaram de três, no rascunho, para treze na versão final. Passou a caber ao presidente resolver casos de omissão das empresas, aceitar ou não a recusa das plataformas em fornecer informações e ser informado sobre riscos ao processo eleitoral, atribuições antes atreladas genericamente ao Tribunal.
A segunda mudança é o afrouxamento de exigências e a ampliação de prazos. O prazo para a entrega dos planos foi fixado em 16 de agosto, dez dias depois do que previa a minuta. As plataformas, que antes deveriam apresentar planos mensais entre agosto e novembro, agora podem consolidar tudo em um único documento até 19 de dezembro, semanas após as eleições. O prazo para atender solicitações do Tribunal subiu de três dias corridos para dez dias úteis, com possibilidade de extensão. A cobertura também registrou que o acesso ao relatório de conformidade, antes previsto para especialistas de universidades e da sociedade civil, ficou restrito a servidores do TSE, com mecanismos para identificar vazamentos e responsabilizar autores.
Como a story tem cobertura de fonte única, não há contraposição direta entre veículos de esquerda, de centro e de direita sobre o episódio. Ainda assim, os fatos permitem antever leituras distintas. Um enquadramento à esquerda tenderia a ver no afrouxamento das regras um recuo do Estado diante do poder das grandes empresas de tecnologia e a criticar a restrição do controle social sobre o relatório. Um enquadramento à direita tenderia a concentrar a crítica na acumulação de atribuições em um único ministro e a enxergar a flexibilização de prazos e o respeito a segredos industriais como correção de excessos regulatórios. A leitura de centro se atém ao que o documento efetivamente alterou.
O que ainda não se sabe é como as plataformas digitais vão reagir às novas obrigações, se haverá questionamento formal à concentração de poderes na presidência do Tribunal e qual será o teor definitivo do texto após a publicação oficial. Também não há, até aqui, manifestação do TSE ou do próprio ministro explicando as razões das mudanças em relação à minuta.