O corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Antonio Carlos Ferreira, rejeitou o pedido de abertura de uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pela participação do presidente argentino Javier Milei em sua convenção partidária e pelo uso, no mesmo evento, de um vídeo do ex-presidente Jair Bolsonaro gerado por inteligência artificial. A decisão foi tomada por razões técnicas, sem exame do mérito das duas situações.
Segundo o despacho, quando o pedido foi apresentado pela deputada estadual Paula da Bancada Feminista (PSOL-SP), tanto a autora quanto o senador ainda eram pré-candidatos, e esse tipo de ação só pode ser analisado depois do registro da candidatura. O corregedor acrescentou que, mesmo superado esse requisito, o pedido teria de partir de candidato ou partido que dispute o mesmo cargo, no caso a Presidência da República. Por isso, escreveu, faltavam legitimidade ativa e passiva e interesse processual. O uso do vídeo gerado por inteligência artificial, porém, não está encerrado: ele continua sob análise do Tribunal Superior Eleitoral em outra ação, essa apresentada pelo PT.
A decisão chegou logo depois da largada da campanha presidencial. No domingo, o senador reuniu apoiadores na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para o primeiro ato de rua, com um discurso de pouco mais de 34 minutos em que prometeu tratar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações terroristas, cobrou a recomposição de R$ 4,2 bilhões que diz terem sido cortados das Forças Armadas e responsabilizou o governo atual pela insegurança, pelo endividamento das famílias e pelo aumento da população em situação de rua. No mesmo dia, em debate televisionado, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), candidato ao governo de Minas Gerais, encerrou a dúvida sobre sua posição na disputa nacional e declarou apoio a Flávio Bolsonaro, afirmando que a definição havia sido tomada em janeiro.
Os três blocos de cobertura convergem nos fatos centrais: a rejeição da ação foi processual, não absolveu nem condenou ninguém, e a discussão sobre o vídeo sintético segue aberta em outro processo. Também não há divergência sobre o roteiro da semana, com o ato de Copacabana como primeiro movimento de campanha e o apoio declarado em Minas Gerais.
A diferença aparece no que cada lado escolhe iluminar. Veículos de direita enfatizaram o rigor processual da decisão e a leitura de que a Justiça Eleitoral recusou uma tentativa de judicializar a disputa por parte de quem sequer concorre ao mesmo cargo, tratando a presença do presidente argentino em uma convenção como episódio de campanha, não como ilícito. A cobertura de centro relatou a decisão pelo encadeamento jurídico, reproduzindo trechos literais do despacho, e registrou separadamente o discurso na íntegra e a movimentação partidária em Minas Gerais, sem juízo sobre o conteúdo. Veículos de esquerda destacaram outro eixo: o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) afirmou que Flávio Bolsonaro assumiu o papel de candidato de Donald Trump no Brasil e classificou como grave o que chamou de estímulo à interferência estrangeira no processo eleitoral, em meio à crise comercial com os Estados Unidos e à decisão do governo Lula de responder ao tarifaço pela Lei da Reciprocidade. Nessa leitura, a tecnicalidade que barrou a ação apenas adia o exame de um problema de soberania.
O que ainda não se sabe é quando e como o Tribunal Superior Eleitoral vai julgar a ação do PT sobre o vídeo gerado por inteligência artificial, nem se haverá nova ação contra a participação do presidente argentino agora que as candidaturas foram registradas e o requisito de legitimidade pode ser cumprido. Também não há, até aqui, manifestação pública do senador ou de sua defesa sobre a decisão, nem resposta do governo federal e do PL às acusações trocadas entre os dois campos. Os números citados no palanque de Copacabana, do corte no orçamento militar ao total de mulheres assassinadas, não foram checados pela cobertura.