A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República atravessou a virada de julho para agosto de 2026 com sinais opostos: avanço consistente nas pesquisas de intenção de voto e recuo dos aliados na hora de montar a chapa. Em 3 de agosto, a pesquisa BTG/Nexus registrou empate técnico no segundo turno, com 46% para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e 45% para o senador, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. No primeiro turno estimulado, o presidente caiu de 42% para 41% e o senador subiu de 33% para 37%, encurtando a vantagem de nove para quatro pontos. O levantamento ouviu 2.002 eleitores por telefone entre 31 de julho e 2 de agosto e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral.
No mesmo intervalo, a articulação partidária foi na direção contrária. A federação União Progressista, o Republicanos e o Podemos anunciaram neutralidade na disputa presidencial e não liberaram nomes para a vaga de vice. A senadora Tereza Cristina, apontada como preferência do PL, chegou a acenar favoravelmente depois de um encontro com o pré-candidato, mas a executiva de seu partido barrou a pretensão. Em paralelo, a pré-campanha anunciou o terceiro responsável pelo marketing em poucos meses, o publicitário Duda Lima. Há convergência entre todos os enquadramentos sobre esse conjunto de fatos: os números da pesquisa, as três negativas partidárias e a troca no comando da comunicação são relatados da mesma forma.
A divergência aparece na leitura. Veículos de direita enfatizaram a competitividade da candidatura e o baixo custo eleitoral das acusações: segundo uma análise de 9.285 comentários em redes sociais, coletados entre 22 e 24 de julho, 37,8% das publicações associavam o senador a acusações de corrupção ou lavagem de dinheiro, mas, entre quem manifestou intenção de voto clara, 54,4% expressaram apoio, e 11,4% do total do material tratava o caso como perseguição política. Nesse enquadramento, o episódio das notas fiscais emitidas pelo escritório de advocacia do senador para empresas ligadas ao Banco Master, no valor de 500 mil reais, com duas notas posteriormente canceladas, teve impacto concentrado em quem já não votaria nele.
Veículos de esquerda destacaram o outro lado da mesma equação: as acusações seguem sem esclarecimento público detalhado, e a dificuldade de encontrar uma mulher disposta a ocupar a vaga de vice é lida como sintoma do desgaste do grupo político com o eleitorado feminino, agravado pela repercussão de falas atribuídas ao campo bolsonarista. A troca sucessiva de marqueteiros é apresentada como resultado da interferência direta da família nas decisões de comunicação, com episódios citados como a viagem a Washington seguida do anúncio de novo tarifaço contra o Brasil. Uma enquete aberta de leitores, sem valor estatístico, registrou que a maioria dos respondentes duvida que o senador aceitaria uma eventual derrota nas urnas.
A cobertura de centro relatou a mecânica partidária sem adjetivos: os dirigentes das legendas justificaram a neutralidade pelo desejo de liberar diretórios estaduais para alianças regionais e pela prioridade de eleger bancadas maiores no Congresso. O presidente de uma das siglas afirmou que, sem coligação, não haverá indicação de vice, e que coligações valem para a eleição inteira. O próprio pré-candidato disse que buscará o apoio nacional dessas legendas até o último minuto, também para ampliar tempo de televisão, e afirmou contar com 22 palanques estaduais fechados. Sem coligação, cresce a chance de uma chapa restrita ao próprio partido.
O que ainda não se sabe é quem ocupará a vaga de vice e se o desenho da chapa se fechará apenas com quadros do PL. Não há esclarecimento público sobre a natureza dos serviços que motivaram a emissão das notas fiscais nem informação sobre eventual apuração formal do caso por órgãos de controle. Também permanece em aberto se a aproximação registrada na pesquisa se sustenta depois do início oficial da campanha, se as legendas neutras mudam de posição em um eventual segundo turno e qual será o efeito prático da perda de tempo de televisão sobre a corrida.