O presidente nacional do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto, admitiu publicamente que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro não deve participar da campanha presidencial de seu enteado, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência em 2026. "Eu sinto que ela não quer participar", afirmou o dirigente em entrevista à Rádio Gaúcha, na quinta-feira, 2 de julho. A declaração selou a leitura, compartilhada por aliados dos dois lados, de que uma reconciliação antes das eleições é improvável.
A crise veio à tona em 24 de junho, quando Michelle publicou vídeos nas redes sociais dizendo ter sido "maltratada" e "humilhada" por Flávio. O desgaste se aprofundou em 30 de junho, quando ela comunicou a Valdemar sua saída da presidência do PL Mulher e sinalizou que pode desistir de disputar uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal. Segundo relatos, a reunião foi tensa: o presidente do partido teria sugerido que Michelle dissesse estar emocionalmente abalada ao gravar o vídeo, e ela recusou, respondendo que havia refletido e orado antes e não se arrependia.
A cobertura de centro, majoritária neste conjunto, relatou os fatos de forma equilibrada, ouvindo aliados dos dois campos e trazendo dados de pesquisa. Segundo o levantamento Genial/Quaest divulgado em 10 de junho, Lula aparece com 39% no primeiro turno e Flávio com 29%; entre o eleitorado feminino, a diferença cresce, com Lula em 41% e Flávio em 24%. Uma pesquisa AtlasIntel/Bloomberg apontou que parte expressiva dos eleitores considera que o desentendimento enfraquece a candidatura de Flávio. As reportagens registraram ainda que a origem do racha está na definição do palanque do PL no Ceará, onde Michelle defende apoio ao senador Eduardo Girão, enquanto Flávio e a cúpula do partido articulam aliança com o ex-governador Ciro Gomes.
Veículos de direita enfatizaram o esforço da cúpula do PL para blindar a candidatura. Valdemar reafirmou que Flávio é "candidatíssimo" e descartou qualquer substituição. Nessa cobertura, ganha destaque a avaliação de que Flávio teria crescido nas pesquisas mesmo durante a crise e de que a postagem de Michelle sobre um vídeo do ex-governador Anthony Garotinho, envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, teria sido desaprovada pelo eleitorado. Parte dos bolsonaristas minimiza o impacto da ausência da ex-primeira-dama, sob a tese de que, na polarização, esses votos dificilmente migrariam para fora do campo em um eventual segundo turno contra Lula.
Já a leitura mais atenta ao ângulo social, presente sobretudo nas análises e no relato do caso, destacou o tratamento dado às mulheres dentro do bolsonarismo. Aliados de Michelle dizem que ela sofreu ataques virtuais e montagens, incluindo uma imagem em que aparece com camisa do PT, e que Flávio não agiu para conter as agressões. A senadora Damares Alves e a governadora Celina Leão pediram que ela não desista da disputa, argumentando que o recuo indicaria às mulheres que não há espaço para elas na política. A crise ocorre enquanto Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar, prorrogada em 3 de julho pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Some-se a isso o caso do Banco Master: mensagens reveladas pelo The Intercept Brasil mostram que Flávio cobrou de Vorcaro parcelas destinadas ao financiamento do filme "Dark Horse", sobre a trajetória de seu pai. Valdemar reconheceu que o encontro com o banqueiro após a prisão foi um erro, mas defendeu que se tratava de dívidas da produção, e negou que Jair Bolsonaro tenha participado dos vídeos de Michelle.
O que ainda não se sabe é se Michelle manterá ou não a candidatura ao Senado, se haverá alguma trégua antes do início oficial da campanha e qual será o real efeito eleitoral da ausência da ex-primeira-dama, considerada estratégica junto aos eleitorados evangélico e feminino. Michelle não se pronunciou diretamente sobre as falas de Valdemar, e as investigações em torno do caso Master seguem em curso.