Um novo relatório colocou a letalidade policial no Brasil de volta ao centro do debate sobre segurança pública e racismo. O estudo Pele Alvo, produzido pela Rede de Observatórios da Segurança, iniciativa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, contabilizou 4.330 mortes por intervenção policial em 2025 em nove estados brasileiros: Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo. O número representa alta de 6,4% em relação a 2024 e significa, na média, ao menos oito pessoas negras mortas por dia pelas polícias nesses estados.
A cobertura de centro, baseada em material da Folhapress, detalhou que 71,7% das vítimas eram negras, proporção superior à presença desse grupo na população dos estados analisados. O relatório aponta ainda que pessoas negras têm quatro vezes mais risco de serem mortas pela polícia do que pessoas brancas. A Bahia concentrou o maior número absoluto, com 1.243 mortes, seguida por Rio de Janeiro, Pará e São Paulo. O total de crianças e adolescentes mortos subiu para 312, quinze a mais que no ano anterior.
Há convergência entre os veículos sobre os números centrais e sobre o recorte etário e racial: a juventude de 18 a 39 anos responde por 79% das vítimas, e a faixa de 18 a 29 anos concentra 57,6% dos casos. Todos os relatos registram que a alta na letalidade policial caminha na contramão da queda geral de homicídios no país, que recuou 10,4% em 2025 segundo o Ministério da Justiça.
As ênfases, porém, divergem. Veículos de esquerda, como a Agência Pública, enquadraram os dados como expressão de racismo estrutural e de um modelo de segurança que incide de forma perversa sobre a juventude negra periférica. O texto destacou a fala da cientista social Silvia Ramos, para quem não se trata de fatalidade nem de casos isolados: em sete edições do relatório, foram 28.799 mortes sem que se construísse política pública efetiva de proteção. A cobertura de esquerda também sublinhou a subnotificação racial em estados como Ceará e Maranhão como mecanismo de apagamento estatístico das vítimas.
A cobertura de centro relatou os mesmos dados sem enquadramento valorativo e trouxe o contraditório das autoridades. A Secretaria de Segurança Pública da Bahia afirmou, em nota, que as mortes em confrontos caíram 12,6% no primeiro semestre de 2026, citou um plano de qualificação das tropas com uso de tecnologia e ampliação do apoio psicológico aos policiais e reiterou compromisso com ações pautadas pela legalidade. Embora não haja artigo de direita no conjunto, essa vertente tende a enfatizar que a ação policial responde a um cenário de criminalidade organizada, com mais de 20 facções disputando rotas do tráfico na Bahia, e que estados têm reduzido homicídios ao mesmo tempo em que buscam accountability.
O que ainda não se sabe é como cada secretaria estadual explica o aumento da letalidade fora da Bahia, já que sete dos nove estados registraram crescimento, e que peso a subnotificação racial no Ceará e no Maranhão tem sobre o retrato final. Também permanece em aberto se as medidas anunciadas pelas polícias serão suficientes para reverter a tendência nos próximos anos.