O candidato do Novo à Presidência da República, Romeu Zema, afirmou na noite de segunda-feira, 24 de agosto de 2026, que concederá anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, caso seja eleito. A declaração foi dada em sabatina televisiva que abriu uma série de entrevistas com presidenciáveis. Ex-governador de Minas Gerais por quase oito anos, Zema classificou o julgamento conduzido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) como nitidamente político e sustentou que os responsáveis deveriam responder apenas por depredação e vandalismo. Nas palavras dele, ou haverá anistia ou, no mínimo, um tribunal que seja judicial e não político.
Toda a cobertura reunida converge nos fatos centrais da entrevista. Ao ser lembrado de que 1.400 pessoas foram condenadas pela Corte por uma soma de sete crimes, entre eles golpe de Estado, tentativa de abolição do estado democrático de direito e organização criminosa armada, o candidato manteve a posição e afirmou que não existe na história um golpe que tenha sido movimento de depredação como o de janeiro de 2023. No mesmo bloco, disse ser totalmente democrata, afirmou confiar na urna eletrônica e acrescentou que o sistema poderia ser melhorado com voto impresso.
Na economia, a promessa mais repetida foi a de um ajuste fiscal capaz de reduzir a taxa básica de juros, hoje em 14% ao ano, para 6%, o que representaria, segundo o candidato, economia de 800 bilhões de reais por ano. As medidas concretas do ajuste não foram detalhadas. Zema garantiu que o salário mínimo terá reposição da inflação e condicionou o ganho real ao bom desempenho da economia, disse que não pretende, por ora, elevar a idade mínima de aposentadoria e defendeu privatizar estatais federais, apoiado no histórico de venda de 118 empresas e participações em Minas Gerais, incluindo a Copasa. Também manteve a posição contrária à obrigatoriedade da vacinação infantil, afirmando ter tomado todas as doses contra a covid-19 e defendendo campanhas de conscientização em lugar de imposição, e citou a política de segurança de Nayib Bukele, em El Salvador, como inspiração parcial, ressalvando que não concorda com a suspensão de direitos adotada lá.
A cobertura de centro foi a que mais confrontou as promessas com dados. Registrou que a Selic está hoje em 14% ao ano, que a dívida pública de Minas Gerais praticamente dobrou durante a gestão do candidato, que o Estado de São Paulo enfrenta um surto de sarampo enquanto se discute vacinação facultativa e que o número de feminicídios em Minas subiu em 2020, 2021, 2022, 2023 e 2025, ao que o entrevistado respondeu que o que vale é a tendência ao longo do tempo. Também detalhou a resposta sobre corrupção, dada em referência a um esquema bilionário com crimes ambientais e lavagem de dinheiro infiltrado em órgãos do governo mineiro, para o qual o candidato pediu apuração e prisão.
Veículos de direita organizaram a mesma entrevista em torno da agenda econômica e institucional. Deram destaque ao superávit de 5 bilhões de reais alegado ao fim da gestão, à valorização de cerca de 300% atribuída a Cemig e Copasa e à promessa de repetir o método no plano federal, e trataram a crítica ao STF como diagnóstico sobre judicialização da política, sem informar quantos foram condenados nem por quais crimes. A tese de que houve vandalismo, e não golpe, apareceu nessa cobertura sem contraponto.
Veículos de esquerda não integram o conjunto de coberturas reunido sobre esta entrevista, o que caracteriza um ponto cego. O argumento que esse campo costuma opor à proposta parte de que anistiar os condenados desfaz a única responsabilização já aplicada ao ataque às sedes dos três Poderes, e de que a recusa à vacinação obrigatória em meio a surto transfere ao indivíduo um risco que é coletivo.
O que ainda não se sabe é o essencial da execução. Não foi explicado por qual instrumento a anistia seria concedida, se por projeto de lei no Congresso, se por outro caminho, nem quais estatais federais entrariam na lista de privatização. Também seguem sem detalhamento as medidas do ajuste fiscal que levariam os juros a 6% e o prazo em que isso ocorreria.