A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) desafiou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, para um debate público, um contra um, sobre a proposta que acaba com a escala de trabalho 6x1. O convite foi publicado nas redes sociais da parlamentar em 24 de agosto de 2026, depois da divulgação de que aliados do senador articulam no Senado para adiar a votação da matéria. Hilton deixou a cargo do adversário a escolha de data, local e horário, e afirmou que o convite é intransferível. Até a publicação das reportagens não havia resposta do senador.
O texto em disputa é a PEC 221/2019, aprovada pela Câmara dos Deputados em maio, que fixa jornada máxima de 40 horas semanais, com cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem redução salarial. A proposta incorpora a emenda apresentada pela própria deputada e virou uma das bandeiras da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição. O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), afirma que a Comissão de Constituição e Justiça do Senado deve votar a matéria em 2 de setembro. O relator, Omar Aziz (PSD-AM), projeta mais de 65 votos favoráveis e pretende apresentar o parecer até 27 de agosto. Do outro lado, o coordenador da campanha do senador, Rogério Marinho (PL-RN), defende que a votação fique para depois das eleições.
Há pontos que as três faixas de cobertura registram sem divergência. Todas relatam que Flávio Bolsonaro não incluiu o fim da escala 6x1 no plano de governo apresentado em 13 de agosto, que ele defende em seu lugar o pagamento por hora trabalhada, a negociação da jornada e a redução do custo da contratação com carteira assinada, e que a proposta se tornou tema central da campanha presidencial. Todas também situam a deputada como principal rosto público da pauta trabalhista nesta eleição.
A divergência começa no enquadramento do adiamento. Veículos de esquerda descreveram a articulação no Senado como manobra de bastidores para impedir que trabalhadores conquistem dois dias de descanso semanal sem perda de salário, e apontaram como contradição o fato de o candidato a vice da chapa, Alfredo Gaspar (PL-AL), ter votado a favor do texto na Câmara. Nessa leitura, o desafio ao debate serve para forçar o senador a assumir em público a posição que sustenta nos bastidores. A cobertura de centro tratou o episódio como etapa de tramitação legislativa, atribuiu a informação sobre a articulação ao jornal que a revelou e mapeou como a proposta divide o campo do centro e da direita: no debate presidencial de 23 de agosto, Renan Santos (Missão) se declarou contra a redução por temer desemprego, Augusto Cury (Avante) se mostrou inclinado a favor e Ronaldo Caiado (PSD) disse não ser contra o mérito, mas criticar a forma como o texto foi construído.
Veículos de direita enfatizaram outro ângulo: o de que o fim da escala 6x1 integra um pacote eleitoral do Executivo em busca da reeleição e que a deputada responde a críticas com ataque pessoal. Essa cobertura concentrou-se no bate-boca iniciado quando Renan Santos se referiu a Hilton pela aparência durante o debate e ela respondeu chamando-o de quem tem "fome de um carguinho" e a seu grupo de "trupe de esquisitões". O argumento econômico apresentado ali é o de que a jornada menor imposta por lei encarece a contratação e empurra vagas para a informalidade, e o de que usar o regimento para desacelerar uma emenda constitucional às vésperas da eleição é prerrogativa da oposição.
Alguns pontos seguem em aberto. Não há resposta do senador ao convite, nem definição sobre a data em que o parecer será de fato apreciado pela comissão. Nenhuma das coberturas apresenta estudo, projeção oficial ou dado que sustente o efeito da mudança sobre o nível de emprego, tese usada pelos dois lados em sentidos opostos. Também não está claro se a oposição terá instrumentos regimentais suficientes para adiar a votação, diante da projeção de votos anunciada pelo relator.