Um levantamento do Diap, o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, divulgado em 28 de julho de 2026, mostra que 87,3% dos deputados federais em exercício pretendem disputar a reeleição no pleito de outubro. São 448 dos 513 parlamentares, o maior porcentual da série histórica do departamento, iniciada em 1990. No Senado, o quadro é semelhante: 35 dos 54 senadores com mandato terminando neste ano, ou 64,8%, sinalizaram que vão tentar permanecer na Casa, também a maior taxa desde 1994. Nesta eleição, o Senado renova dois terços da composição, o equivalente a 54 das 81 cadeiras.
A cobertura de centro relatou os números como um retrato institucional do Congresso e acrescentou o comparativo histórico. Em 2022, 86,9% dos deputados tentaram a reeleição e 65,6% deles conseguiram; a renovação média da Câmara desde 1990 é de 48,5%, e naquele ano 237 novos deputados, ou 46,3%, chegaram ao plenário. No Senado, a renovação costuma ser alta quando dois terços das cadeiras estão em jogo, e chegou a 85,1% em 2018. Essa cobertura também destacou a concentração esperada em poucas legendas, com PP, União Brasil, PT, PL, Republicanos e PSD disputando as maiores bancadas, e o PSB apontado como a sigla que mais deve crescer na centro-esquerda.
Há convergência sobre o que explica o número recorde. O diagnóstico do estudo aparece em todas as versões: quem já tem mandato entra na disputa com vantagens estruturais. Em 2026, os deputados dispõem de emendas individuais dentro de um orçamento impositivo de R$ 26,6 bilhões, verba de gabinete de R$ 112 mil e cota mensal de atividade parlamentar entre R$ 30 mil e R$ 44,3 mil, além de prioridade na distribuição dos recursos do Fundo Eleitoral. A isso se somam o limite de candidaturas por vaga e a nova regra das sobras eleitorais, que exige 80% do quociente para o partido e 20% para o candidato.
Veículos de direita enfatizaram justamente esse desequilíbrio. Deram relevo à fala do diretor do instituto de que o valor de emendas à disposição de cada parlamentar praticamente quintuplicou, de algo entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões ao ano para cerca de R$ 50 milhões, e trataram o dado como evidência de uma classe política que se perpetua com dinheiro público. Veículos de esquerda tendem a ler o mesmo conjunto de fatos pela chave do acesso: as regras que limitam candidaturas e o peso do orçamento parlamentar erguem uma barreira para quem não tem mandato nem estrutura, fechando a competição eleitoral a quem já está dentro e concentrando a representação nas legendas maiores.
Os dois levantamentos lembram que a permanência prolongada não é novidade. Um deputado em exercício foi eleito pela primeira vez em 1990 e cumpre o nono mandato; outros quatro estão no oitavo, eleitos em 1994. No Senado, há parlamentar em atividade desde 1994, o equivalente a quatro mandatos e 32 anos. Também há desistências relevantes, sobretudo em grandes colégios eleitorais como São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná, onde quase nenhum senador atual tenta o mesmo cargo. Na Bahia, os 39 deputados atuais querem a reeleição; no Tocantins, apenas 3 dos 8. Os 65 deputados e os 20 senadores que não buscam o mesmo cargo não necessariamente deixam a vida política: muitos negociam disputas por governos estaduais, Senado ou outros postos.
O que ainda não se sabe é quanto desse desejo vira candidatura e quanto vira mandato. Os números são preliminares e foram levantados por consulta a sites, portais locais, líderes partidários e gabinetes. A lista definitiva só existe depois das convenções partidárias, que terminam em 5 de agosto, e do registro no Tribunal Superior Eleitoral. O próprio estudo admite que o total de deputados candidatos à reeleição pode chegar a 495 se indecisos confirmarem a disputa, e ao menos um senador listado como fora da corrida já sinalizou que deve concorrer. Nenhuma das coberturas projeta quantos dos 448 devem de fato se reeleger, nem como as desistências vão redesenhar as bancadas estaduais.