A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro comunicou a parlamentares aliados que desistiu de disputar uma vaga ao Senado Federal pelo Distrito Federal nas eleições de 2026. A decisão vem na esteira de uma crise pública com o senador Flávio Bolsonaro (PL), enteado da ex-primeira-dama e pré-candidato do partido à Presidência da República. Segundo relatos de quem esteve com ela nos últimos dias, Michelle se disse 'esgotada' e preocupada com a repercussão do embate, e afirmou que preferiria dedicar seu tempo a cuidar do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após condenação no caso da trama golpista.
O estopim da crise foi tornado público na semana anterior, quando Michelle divulgou dois vídeos nas redes sociais afirmando ter sido 'maltratada e desrespeitada' por Flávio e classificando a postura do senador como ríspida. Nos bastidores, o atrito tem origem em uma queda de braço sobre a estratégia eleitoral do PL no Ceará: Flávio e a direção nacional do partido defendem apoio à candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao governo estadual, posição a que Michelle se opõe. Um dos veículos registrou ainda que a ex-primeira-dama defendia o nome de Eduardo Girão (Novo) para a disputa cearense, detalhe não confirmado pelas demais coberturas.
A cobertura de centro relatou os desdobramentos partidários com foco nos fatos. A ameaça de desistência coloca em risco a chapa majoritária que o PL havia desenhado para o Distrito Federal, que previa Michelle e a deputada Bia Kicis ao Senado, em aliança com Celina Leão na corrida pelo governo distrital. Para conter o estrago, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, marcou uma reunião de emergência com a ex-primeira-dama, enquanto Flávio tentou gestos de reaproximação, convidando-a para um evento de pré-campanha voltado ao eleitorado feminino, segmento em que pesquisas apontam maior resistência à sua candidatura. Até o fechamento das reportagens, Michelle não havia confirmado presença. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, minimizou o episódio ao chamá-lo de 'questão familiar' e prever que os dois chegariam a um entendimento.
Veículos de direita enfatizaram o peso estratégico de Michelle como principal ativo do PL para atrair o voto feminino conservador, tratando a crise sobretudo como um problema de gestão a ser contornado pela cúpula, e situaram o episódio dentro de um rearranjo maior das chapas do partido, incluindo a definição da vaga ao Senado pelo Rio entre Carlos Portinho e Carlos Jordy. Já a leitura mais à esquerda destacou o tratamento dado à ex-primeira-dama por aliados homens de Flávio, como Eduardo Bolsonaro, Alexandre Ramagem e o influenciador Paulo Figueiredo, e leu o episódio como sintoma das fraturas do bolsonarismo e da resistência feminina à candidatura, num momento em que Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar. Análises nessa linha apontaram ainda que o partido passou a usar a pauta de segurança pública como recurso tático para recompor a candidatura de Flávio e desgastar o governo Lula.
Ainda não se sabe se Michelle manterá a decisão de deixar a disputa ou se a articulação do PL conseguirá revertê-la, tampouco qual será o efeito concreto sobre a chapa do Distrito Federal caso a desistência se confirme. Também permanece em aberto se o convite de Flávio para o evento com lideranças femininas resultará em reconciliação efetiva dentro da família e do partido.