O presidente Luiz Inácio Lula da Silva telefonou a Donald Trump na manhã de sexta-feira, 21 de agosto, na primeira conversa direta entre os dois desde a aplicação da sobretaxa de 25% sobre parte das exportações brasileiras, anunciada em 15 de julho. Pouco depois da ligação, o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, procurou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços para propor a retomada das conversas técnicas entre os dois governos.
O ministro Márcio Elias Rosa afirmou que recebeu a mensagem de Greer logo após o telefonema e que as equipes ficaram de acertar data e horário a partir de segunda-feira, com expectativa de reunião para o fim da semana seguinte. Segundo o ministro, o foco inicial não é reverter as tarifas por inteiro, e sim ampliar a lista de exceções aos produtos brasileiros atingidos. Um acordo mais amplo, que afaste as medidas baseadas na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, ficaria para depois das eleições brasileiras, por ser negociação mais demorada. O ministro também disse que o processo de reciprocidade aberto pelo Brasil contra os Estados Unidos segue em curso, sem conclusão prevista antes de dezembro.
Há dois blocos tarifários em jogo. O primeiro é a sobretaxa de 25%, dirigida apenas ao Brasil e resultante de investigação por práticas comerciais consideradas injustas. O segundo é a tarifa adicional de 12,5% aplicada ao Brasil e a outras 59 economias sob a alegação de falhas na fiscalização de importações de produtos feitos com trabalho forçado. Pelo relato do ministério, só a primeira exige negociação bilateral; a segunda, por atingir vários países, dificilmente será tratada em acordo específico com o Brasil.
Veículos de esquerda destacaram a leitura política do episódio, com ênfase na fala de Lula em comício em Belo Horizonte, onde o presidente afirmou que Trump reconheceu seus argumentos e que as alegações de desmatamento e de trabalho escravo eram inverdades, já que o país registra o menor desmatamento de sua série histórica. Nessa cobertura, o telefonema aparece como vitória diplomática e como validação da estratégia de defender soberania e cooperação ao mesmo tempo, inclusive no combate ao crime organizado, área em que o governo brasileiro diz aceitar parceria, mas com instrumentos próprios.
A cobertura de centro relatou o mesmo encadeamento de fatos com mais reservas, tratando a ligação como quebra de gelo e abertura de canal direto, não como reversão do tarifaço. Nessa leitura ganham peso o horizonte eleitoral do acordo definitivo, o caráter apenas incremental da negociação por exceções e a avaliação de fontes de que o próprio mecanismo de reciprocidade ajudou a puxar os dois presidentes para a mesa.
Veículos de direita não registraram o episódio no conjunto de matérias analisadas, e a ausência deixa sem contraponto tanto a tese de vitória diplomática quanto a cobrança usual por prazo, lista de produtos e resultado mensurável para o exportador que já convive com a sobretaxa há mais de um mês.
O que ainda não se sabe é o essencial da negociação. Não há data marcada para a reunião entre o ministério, o Itamaraty e o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, nem lista dos produtos que entrariam nas novas exceções. Também não está definido se a tarifa de 12,5% ligada ao trabalho forçado pode ser afastada, qual será o desfecho do processo de reciprocidade brasileiro e se as medidas da Seção 301 podem cair antes das eleições. Do lado norte-americano, não houve manifestação pública detalhando o que Washington espera obter em troca.