O candidato do PSD à Presidência da República, Ronaldo Caiado, transformou a convenção nacional que oficializou Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como candidato ao Planalto no principal alvo de sua campanha na última semana. Em declarações dadas em 29 de julho, em Brasília, após reunião com representantes da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão e da Associação Nacional de Jornais, o ex-governador de Goiás afirmou que, no evento realizado em 25 de julho, em São Paulo, o candidato do PL 'perdeu para um argentino e perdeu para um avatar'. A frase resume as duas críticas: o protagonismo do presidente da Argentina, Javier Milei, convidado da convenção, e a exibição de um vídeo produzido com inteligência artificial reproduzindo a imagem e a voz do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Ao lado dele, o presidente do PSD e candidato a vice, Gilberto Kassab, disse ter visto o evento 'com muito espanto' e afirmou que o eleitor quer conhecer o pensamento do candidato, e não do pai apresentado por inteligência artificial. Dias depois, em convenções estaduais do partido em Santa Catarina, em 1º de agosto, e no Rio Grande do Sul, em 2 de agosto, Caiado ampliou o ataque e classificou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador do PL como 'os dois mais rejeitados do país' e 'fujões' por, segundo ele, evitarem o debate. Em entrevista a um podcast, em 3 de agosto, voltou ao tema e disse que o adversário foi 'coadjuvante total' na própria convenção, além de afirmar que o senador 'não tem currículo, tem certidão de nascimento'.
A cobertura de centro concentrou-se na reprodução das declarações, na descrição do evento e no andamento do caso na Justiça. Esses veículos registraram que o vídeo gerado por inteligência artificial passou a ser examinado pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Tribunal Superior Eleitoral: em 28 de julho, o ministro Alexandre de Moraes deu 48 horas para a defesa de Jair Bolsonaro esclarecer se o ex-presidente autorizou o material, e no tribunal eleitoral o ministro Kassio Nunes Marques foi sorteado relator da ação. Também registraram a posição do candidato do PSD sobre o tema: seguir os ditames da lei eleitoral e identificar quando houver uso de inteligência artificial em sua campanha.
Veículos de direita deram mais espaço ao contexto da disputa interna do campo conservador e às consequências externas do episódio. Nessa cobertura, ganham relevo o discurso de Milei criticando o presidente brasileiro e o ministro Alexandre de Moraes, o apoio explícito do argentino à candidatura do PL, a resposta irônica de Lula e a informação de que o governo brasileiro avalia os próximos passos da relação diplomática, inclusive o retorno do embaixador convocado. O enquadramento predominante é o de erro de cálculo eleitoral: uma convenção que deveria apresentar propostas econômicas acabou dominada por um embate internacional. A cobrança de currículo aparece com destaque, assim como o argumento de que liderança não se herda.
Veículos de esquerda praticamente não cobriram o episódio no conjunto analisado, o que configura um ponto cego: a leitura que enfatizaria a quebra de soberania com um chefe de Estado estrangeiro atacando autoridades brasileiras em solo nacional, ou o risco de manipulação do eleitorado por conteúdo sintético, não aparece nas fontes disponíveis. Sem essa cobertura, o debate sobre regulação de plataformas fica registrado apenas na versão do candidato do PSD, que disse ser contra uma 'legislação retrógrada' e a favor de criminalizar quem faz mau uso das plataformas, com respeito a direitos autorais.
O que ainda não se sabe é o desfecho dos dois processos: nem o Supremo nem o tribunal eleitoral concluíram a análise do vídeo, e não há decisão sobre eventual irregularidade ou sobre consequências para o cumprimento da pena do ex-presidente. Também segue em aberto o rumo da relação diplomática com a Argentina e se o embaixador brasileiro retorna a Buenos Aires. Não há, nas matérias, resposta da campanha do PL às acusações de falta de propostas, nem detalhamento das denúncias que, segundo o candidato do PSD, o senador precisaria explicar. Por fim, os índices de rejeição citados no palanque não vieram acompanhados dos números de pesquisa que os sustentariam.