O senador Flávio Bolsonaro anunciou na quarta-feira, 5 de agosto de 2026, o deputado federal Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente em sua chapa. O anúncio foi feito na sede do Partido Liberal, em Brasília, no último dia do prazo para a realização das convenções partidárias, e encerrou meses de negociação em que a campanha tentou, sem sucesso, atrair um vice de outra legenda. Até a madrugada do mesmo dia, Gaspar afirmava publicamente que disputaria uma vaga no Senado por Alagoas.
A chapa saiu puro-sangue, formada apenas por integrantes do PL. União Brasil, Progressistas, MDB, Republicanos e Podemos decidiram manter neutralidade na disputa presidencial e liberaram seus diretórios estaduais para apoiar quem quiserem. A decisão final foi tomada em uma articulação restrita ao presidenciável, ao presidente do partido e ao coordenador da campanha, com aval do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O perfil do escolhido é o ponto em que toda a cobertura converge. Gaspar tem 55 anos, formou-se em direito em 1993, ingressou no Ministério Público de Alagoas em 1996 e ali atuou por 24 anos, chegando a procurador-geral de Justiça do estado, cargo que deixou em 2020. Comandou a Secretaria de Segurança Pública de Alagoas em dois períodos, entre 2015 e 2016 e entre 2021 e 2022. Elegeu-se deputado federal em 2022 pelo União Brasil, com 102.039 votos, e migrou para o PL na janela partidária deste ano. Ganhou projeção nacional como relator da comissão parlamentar mista de inquérito que apurou os descontos indevidos aplicados a aposentados e pensionistas do INSS. Seu relatório pediu mais de duzentos indiciamentos, entre eles o de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, e foi rejeitado pelos próprios integrantes do colegiado.
A cobertura de centro relatou que a definição sinaliza isolamento político da candidatura, já que as recusas sucessivas das legendas do Centrão inviabilizaram a coligação pretendida. Essa cobertura também registrou o desconforto interno provocado pela decisão: integrantes da ala feminina do PL disseram reservadamente que o pré-candidato passou meses prometendo uma mulher na chapa e que havia alternativas dentro do próprio partido. Em público, porém, parlamentares mulheres próximas à campanha minimizaram a frustração, uma delas afirmando que uma vice escolhida apenas por simbolismo não lhe interessa. Ainda no campo do centro, houve a leitura de que o maior beneficiado local é o ex-presidente da Câmara Arthur Lira: a saída de Gaspar da corrida ao Senado por Alagoas retira do caminho seu principal concorrente pelo eleitorado conservador no estado.
Veículos de direita enfatizaram a celebração do anúncio dentro do campo bolsonarista. Deram destaque à mensagem da ex-primeira-dama desejando vitória à chapa e agradecendo às mulheres que colocaram seus nomes à disposição, e às manifestações de apoio de dois filhos do ex-presidente e de deputados do PL, que trataram o escolhido como figura central no enfrentamento às fraudes contra os aposentados. Nessa cobertura, a agenda de segurança pública e de combate à corrupção aparece como o principal ativo da chapa, e as críticas internas à preterição de candidatas mulheres não são registradas.
Veículos de esquerda não figuram entre as fontes que cobriram o anúncio neste conjunto de matérias. O ângulo mais crítico ao candidato apareceu na cobertura de centro, que documentou tanto a promessa não cumprida quanto o fato de o relatório da comissão parlamentar ter sido rejeitado, e a leitura de que a chapa fechada em torno de um único partido revela dificuldade de ampliar alianças.
O que ainda não se sabe é se o ex-presidente da Câmara participou de fato da articulação que retirou seu concorrente da disputa estadual, já que ele não confirmou publicamente esse papel. Também segue em aberto o estágio de apuração da acusação lançada contra Gaspar durante a comissão parlamentar, que ele nega, e o destino do ex-prefeito de Maceió, cotado para o governo de Alagoas sem definição de campo. Por fim, não há medição sobre o efeito da escolha entre o eleitorado feminino: as pesquisas divulgadas logo após o anúncio, de dois institutos diferentes, apontam disputa apertada, com o presidente à frente por margem estreita, mas foram a campo antes que o novo desenho da chapa pudesse ser avaliado.