O senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL ao Palácio do Planalto, anunciou na quarta-feira, 5 de agosto de 2026, o deputado federal Alfredo Gaspar, de Alagoas, como seu candidato a vice-presidente. A definição foi feita no último dia do prazo para as convenções partidárias e encerrou meses de negociação em que a campanha tentou, sem sucesso, atrair um partido do chamado Centrão para a chapa. União Brasil, Progressistas, MDB, Republicanos e Podemos optaram pela neutralidade na disputa presidencial, e o resultado foi uma chapa puro-sangue, formada apenas por quadros do próprio partido.
Gaspar tem 55 anos, é natural de Maceió e construiu carreira no Ministério Público de Alagoas, onde atuou por 24 anos e chegou a procurador-geral de Justiça. Foi também secretário de Segurança Pública do estado em dois períodos, um deles na gestão do ex-governador Renan Filho. Eleito deputado federal em 2022 pelo União Brasil, filiou-se ao PL neste ano e ganhou projeção nacional como relator da comissão parlamentar mista de inquérito que apurou fraudes no INSS. Seu relatório, rejeitado pelos integrantes da comissão, pedia mais de duzentos indiciamentos, entre eles o de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Lula. Na véspera do anúncio, ele havia sido oficializado candidato ao Senado por Alagoas ao lado do ex-presidente da Câmara Arthur Lira.
A cobertura de centro relatou que a decisão saiu de uma articulação restrita, envolvendo o presidenciável, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e o coordenador da campanha, Rogério Marinho, com o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro. Esses veículos enquadraram o desfecho como sinal de isolamento da candidatura, que não conseguiu ampliar a coligação, e destacaram um efeito colateral no tabuleiro alagoano: ao deixar a disputa pelo Senado, Gaspar libera o eleitorado conservador do estado para Arthur Lira e reabre espaço para uma recomposição com o ex-prefeito de Maceió JHC. A mesma cobertura registrou o desconforto da ala feminina do PL, que trabalhava havia meses com a promessa de uma mulher na chapa. Nomes como Tereza Cristina e Daniella Marques ficaram pelo caminho depois que seus partidos decidiram pela neutralidade, e parlamentares do próprio PL, como Bia Kicis, Julia Zanatta e Priscila Costa, foram citadas reservadamente como alternativas descartadas.
Veículos de direita deram ênfase à recepção positiva dentro do campo bolsonarista. Registraram a manifestação de apoio de Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado pelo Distrito Federal, que agradeceu às mulheres que colocaram seus nomes à disposição e desejou vitória à chapa, e as comemorações de Carlos e Eduardo Bolsonaro nas redes sociais. Nessa leitura, a trajetória do escolhido no Ministério Público e na segurança pública sinaliza dureza contra a corrupção e o crime organizado, e a relatoria da CPMI do INSS transforma o escândalo dos descontos indevidos em aposentadorias no principal eixo de ataque ao governo federal. Também nesse recorte, lideranças femininas do campo conservador argumentaram que escolher uma mulher apenas pelo simbolismo não seria suficiente.
Veículos de esquerda não haviam publicado cobertura própria do episódio até o fechamento desta reportagem. O contraditório ao enquadramento anticorrupção da chapa aparece, portanto, apenas de forma indireta nos textos de centro, que lembram que o relatório da CPMI foi rejeitado pela comissão e que a relatoria terminou em bate-boca com um deputado do PT, que dirigiu ao relator uma acusação grave, negada por ele na ocasião.
Ainda não se sabe qual será o desenho final das alianças estaduais do partido, se o ex-prefeito de Maceió ficará no palanque da direita em Alagoas, nem que efeito a chapa sem coligação terá sobre o tempo de propaganda e sobre a estrutura da campanha. Segue em aberto também como o eleitorado feminino, apontado por aliados como o ponto frágil da candidatura, reagirá à escolha, e se a estratégia de concentrar o discurso no caso do INSS se sustentará diante de um relatório que não foi aprovado pelo Congresso.