A rodada de convenções partidárias do primeiro fim de semana de agosto de 2026 consolidou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como o nome do campo conservador na disputa pela Presidência da República e, ao mesmo tempo, reacendeu a discussão sobre os limites da propaganda eleitoral antes do início oficial da campanha.
No sábado, 1º de agosto, o ex-juiz Sergio Moro foi oficializado candidato do PL ao governo do Paraná e usou o discurso para declarar apoio à pré-candidatura de Flávio, afirmando que o grupo está unido em torno do objetivo de derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na mesma convenção foram confirmados os nomes do partido e de uma legenda aliada para as duas vagas ao Senado no estado. Em São Paulo, o presidente nacional de outra legenda do centro conservador manifestou preferência pelo senador, com a ressalva de que o apoio nacional do partido ainda seria discutido internamente. Em Santa Catarina, na convenção que lançou a reeleição do governador local, o próprio Flávio discursou e pediu votos aos presentes. No mesmo dia, na Bahia, o presidente Lula participou da convenção que oficializou a reeleição do governador do estado e também pediu votos para si.
Os veículos de direita enfatizaram a coesão do campo oposicionista, tratando a adesão de nomes associados ao combate à corrupção como prova de que o projeto ultrapassa o núcleo familiar do ex-presidente e apresentando a derrota do governo como objetivo econômico e moral compartilhado. Nessa cobertura, o pedido de voto em convenção aparece como ato natural entre filiados, e o entusiasmo de apoiadores nas redes sociais, como sinal de mobilização espontânea.
A cobertura de centro concentrou-se na questão jurídica. A legislação em vigor autoriza a propaganda eleitoral apenas a partir de 16 de agosto, e pedidos explícitos de voto antes disso podem caracterizar propaganda antecipada. Três especialistas em direito eleitoral ouvidos avaliaram que convenção partidária é ato de natureza intrapartidária, previsto no artigo 36 da Lei das Eleições, e que pedir voto a correligionários nesse contexto não é, em regra, ilícito. A ressalva foi unânime: o quadro muda quando o conteúdo é transmitido ao vivo ou recortado para as redes sociais, deixando de ser evento fechado. Cabe à Justiça Eleitoral avaliar o caso, se for provocada. Essa mesma cobertura registrou ainda a repercussão de um vídeo em que um casal, durante os votos de casamento realizado meses antes no Piauí, interrompeu a cerimônia para declarar apoio ao candidato do PL, cena que voltou a circular na internet no início de agosto.
Já os veículos de esquerda deslocaram o foco para a transparência patrimonial do entorno do pré-candidato. A mãe do senador, ex-vereadora no Rio de Janeiro e agora candidata a deputada federal, declarou R$ 749 mil em bens à Justiça Eleitoral, incluindo um apartamento em Brasília avaliado em R$ 470 mil que não constava de sua declaração de 2020, ano em que informou patrimônio de R$ 233 mil. O imóvel, adquirido em 2020, é apontado como usado por outro filho do ex-presidente durante estadias na capital. A candidata havia sido inicialmente cogitada como suplente ao Senado e migrou para a disputa na Câmara depois que o cabeça da chapa se tornou alvo de operação da Polícia Federal.
Os três recortes convergem em um ponto factual: o campo bolsonarista fechou agosto com apoios regionais somando-se à candidatura presidencial, enquanto o governo mobilizava sua própria base nas convenções estaduais. Divergem no que colocam em primeiro plano — de um lado a unidade e o discurso econômico, do outro a conformidade com as regras eleitorais e a fiscalização de patrimônio.
O que ainda não se sabe é se algum partido acionará a Justiça Eleitoral por causa dos pedidos de voto feitos em 1º de agosto e qual seria o desfecho de uma eventual representação; se a legenda que declarou preferência em São Paulo formalizará apoio nacional; e qual a explicação da candidata para a ausência do apartamento na declaração de 2020, já que nenhuma resposta dela ou de sua defesa foi apresentada até o momento.