O primeiro debate entre candidatos à Presidência da República do ciclo eleitoral de 2026 foi ao ar na noite de domingo, 23 de agosto, sem os dois nomes que lideram as pesquisas de intenção de voto. Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema não compareceram. Participaram Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury. No mesmo horário, uma emissora concorrente exibia uma entrevista gravada do presidente, e as medições de audiência divulgadas no dia seguinte colocaram a entrevista à frente do debate na Grande São Paulo.
Os números variam conforme a apuração citada. Uma medição em tempo real registrou 4,28 pontos para a entrevista contra 2,06 pontos do debate às 20h57, diferença de 108% naquele minuto, com a emissora do debate em quarto lugar. Outra apuração indicou 2,2 pontos para o debate, exibido das 20h05 às 21h25, e cinco pontos para a faixa em que a entrevista foi ao ar, das 20h32 às 20h54. As duas contagens tratam de recortes diferentes, e nenhuma das reportagens apresenta a média consolidada da noite inteira.
No palco, a ausência dos favoritos dominou boa parte do programa. Renan Santos dirigiu ataques aos púlpitos vazios, defendeu intervenção federal em estados que, segundo ele, estão dominados pelo crime organizado, e criticou a proposta de redução da jornada de trabalho. Ronaldo Caiado apresentou sua gestão em Goiás, defendeu a redução dos juros e propôs o uso de inteligência artificial na segurança pública. Augusto Cury chegou a anunciar que deixaria o debate em protesto contra as ausências, voltou atrás e concentrou suas falas em educação, além de afirmar que os trabalhadores brasileiros vivem situação de esgotamento. Os blocos trataram ainda de corrupção, economia, relação com os Estados Unidos e o fim da escala 6x1.
Na entrevista, gravada em Brasília, o presidente falou sobre as investigações que envolvem seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, e afirmou que ninguém está acima da lei, que não interfere nas apurações e que orientou o filho a se defender. Lula disse pretender criar um Ministério da Segurança Pública em um eventual novo mandato, condicionado à aprovação da PEC da Segurança Pública, e defendeu inteligência policial e coordenação entre União, estados e municípios em vez de repressão violenta. Também tratou da relação com Donald Trump, que classificou como diálogo civilizado, ainda que criticando medidas adotadas por integrantes do governo norte-americano; da queda do desemprego e da inflação, com a ressalva de que os juros altos seguem pesando sobre as famílias; do combate ao feminicídio; e da deterioração do debate político nas redes sociais.
A cobertura se dividiu no que escolheu destacar. Veículos de esquerda transformaram a audiência em argumento político, descreveram o encontro como um debate de segunda divisão pela ausência dos líderes e resumiram a entrevista pela agenda social do governo, incluindo o fim da escala 6x1 e as medidas de proteção às mulheres. A cobertura de centro se limitou aos dados: horários, pontuação, colocação das emissoras e a lista de quem participou e de quem faltou, sem explicar o motivo das ausências. Veículos de direita ignoraram a comparação de audiência e concentraram-se no que ocorreu no estúdio, dando destaque ao cochilo de Gilberto Kassab durante uma fala e à brincadeira que Ronaldo Caiado fez a respeito nas redes sociais, além das cobranças sobre corrupção dirigidas aos ausentes. Pesquisa Datafolha divulgada dois dias antes indicava Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 33% das intenções de voto, com Caiado em 5% e Renan Santos em 4%.
O que ainda não se sabe é relevante para interpretar o episódio. Nenhuma das reportagens traz a média consolidada de audiência dos dois programas, nem dados fora da Grande São Paulo, o que impede afirmar qual foi o desempenho nacional. Também não há justificativa oficial dos três candidatos que faltaram, nem informação sobre se eles participarão dos próximos debates da campanha. A divergência entre as duas medições citadas permanece sem explicação metodológica, e não há indicação de que o resultado de audiência de uma noite tenha efeito mensurável sobre intenção de voto.