O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu no domingo, 16 de agosto de 2026, a campanha pela reeleição em um ato no Estádio Municipal 1º de Maio, a antiga Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Foi o primeiro dia em que a legislação eleitoral permite atos de campanha e pedido explícito de voto, depois da inscrição da chapa no Tribunal Superior Eleitoral. Lula disputa um quarto mandato, tem Geraldo Alckmin (PSB) como candidato a vice e é apoiado por uma coligação formada por PT, PCdoB, PV, PSB, PDT, PSol e Rede. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.
O endereço carrega o próprio arco da biografia do candidato. Foi naquele gramado que Lula, então dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, comandou as assembleias das greves do fim dos anos 1970, movimento que antecedeu a fundação do PT. O estádio, antes batizado com o nome de um presidente do regime militar, passou a se chamar 1º de Maio na década seguinte. A campanha explorou a coincidência com o lema Onde tudo começou, com exibição de imagens de arquivo e um vídeo em que o presidente dialoga simbolicamente com a própria versão do passado.
As coberturas convergem sobre o conteúdo do discurso. Lula colocou a soberania nacional como eixo, com menção direta à exploração das terras raras e à recusa de entregar minerais estratégicos a terceiros. Defendeu a aprovação da PEC da Segurança Pública e prometeu criar um ministério específico para a área, com a frase de que quem manda no crime organizado mora em coberturas e não nas favelas. Prometeu ampliar o acesso às universidades, citou a expansão dos institutos federais e fez um aceno ao eleitorado feminino ao dizer que a formação das crianças precisa incluir o respeito às mulheres. O palanque reuniu Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede), candidatas ao Senado por São Paulo, além de Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin, Gleisi Hoffmann (PT) e a primeira-dama Janja da Silva.
A divergência entre as coberturas está no enquadramento e no tamanho do ato. Veículos de esquerda destacaram a carga afetiva do evento: cronometraram os 36 minutos de discurso, encadearam as greves do ABC, a prisão durante a ditadura e a prisão de 2018 na operação Lava Jato como uma trajetória contínua, registraram o hino nacional cantado por Fafá de Belém, símbolo da campanha das Diretas Já, e adotaram na voz do próprio texto a classificação de extrema direita para o principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL). Nessa cobertura, o secretário de Comunicação do PT estimou mais de 40 mil pessoas, número apresentado ao lado da informação de que a arquibancada comporta 12,5 mil e de que o gramado foi liberado ao público.
A cobertura de centro manteve registro mais contido e chegou a outro número: informou cerca de 20 mil participantes segundo a organização, sem endossar a contagem. Uma parte dessa cobertura concentrou-se no encadeamento do palanque, com transcrição das falas de Simone Tebet e Marina Silva, que pediram voto uma à outra e disputaram com a oposição a propriedade das cores verde e amarela. Outra parte tratou a disputa por símbolos nacionais explicitamente como tentativa da campanha, e não como fato consumado, e registrou a cobrança de Lula para que a militância compare seu governo ao de Jair Bolsonaro em educação e emprego.
Veículos de direita não integram este conjunto de reportagens, e a ausência é a lacuna mais visível do material: nenhuma matéria traz resposta da campanha adversária às falas do palanque, nem contraponto às promessas de novo ministério e de restrição à exploração de minerais raros. Os ângulos que essa cobertura costuma priorizar, como o custo fiscal da estrutura prometida e a checagem independente do público, ficaram fora do registro disponível.
O que ainda não se sabe é justamente o que os números não fecham. Não há contagem independente do público, e a diferença entre as estimativas disponíveis é de mais do que o dobro. Também não foi detalhado como seria financiado e estruturado o ministério prometido, nem qual é o prazo de tramitação da PEC da Segurança Pública no Congresso. E não há, nas matérias, definição concreta da política para terras raras além da recusa genérica em entregar a extração.