A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro será candidata ao Senado pelo Distrito Federal nas eleições de 2026. O anúncio foi feito na noite de sábado, 1º de agosto, pela deputada federal Bia Kicis, do PL, durante o lançamento da própria pré-candidatura ao Senado, no Parque da Cidade, em Brasília. Segundo a deputada, a ex-primeira-dama a incumbiu de divulgar a decisão porque estava em um hospital, à espera de uma ressonância para investigar crises de enxaqueca que já duravam mais de dez dias. Do palanque, Bia Kicis afirmou que a dúvida e o mistério tinham acabado e que caminharia junto com a ex-primeira-dama e com a governadora Celina Leão, candidata à reeleição.
A cobertura de centro relatou que a informação circulava desde a quinta-feira, 30 de julho, quando a senadora Damares Alves e a própria governadora já haviam afirmado, em convenção estadual do Republicanos, que Michelle Bolsonaro e Bia Kicis seriam as candidatas ao Senado. Naquele dia, um banner com as três mulheres foi instalado ao lado do palco principal. A assessoria da ex-primeira-dama, porém, negou o anúncio na ocasião e disse que só ela mesma poderia falar sobre a própria candidatura. Na sexta-feira, 31, depois de uma reunião com a deputada e com o presidente nacional do partido, Michelle repetiu que ainda não havia decidido e que sua prioridade continuava sendo cuidar do marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.
Os relatos convergem no essencial. A chapa do Distrito Federal deve ser formada por Michelle Bolsonaro e Bia Kicis para as duas vagas do Senado, com apoio à reeleição da governadora. Um dos irmãos da ex-primeira-dama, ex-assessor de um governador do Sudeste, deve ocupar a primeira suplência, enquanto outro irmão concorrerá a deputado distrital. No mesmo sábado, o Supremo Tribunal Federal autorizou que uma irmã de Michelle permanecesse na residência da família enquanto ela fazia exames, medida necessária porque o relator do caso restringiu as visitas ao ex-presidente e proibiu, até o fim das eleições gerais, encontros com finalidade político-eleitoral. Nas redes sociais, a ex-primeira-dama confirmou os exames e declarou apoio à aliada, sem tratar diretamente da própria candidatura.
As ênfases mudam conforme o campo. Veículos de direita apresentaram a definição como reconstrução da unidade do campo conservador na capital, deram espaço integral às falas que atribuem ao governo federal a alta do custo de vida, com menção a preços de alimentos e a juros bancários entre 15% e 16% ao ano, e reproduziram sem ressalva a formulação da governadora de que a eleição terá apenas dois lados, o do bem e o do mal, e de que é preciso evitar que a esquerda ocupe duas cadeiras no Senado. A cobertura de centro fez o caminho oposto: registrou a negativa da assessoria, sublinhou que a decisão foi comunicada por terceiras pessoas e não pela interessada, reconstruiu o rompimento público entre a ex-primeira-dama e o enteado Flávio Bolsonaro, ocorrido em junho, quando ela disse ter sido maltratada e humilhada em discussões sobre alianças e sobre o espaço destinado a candidaturas femininas, e lembrou que ela deixou a presidência nacional do braço feminino do partido pouco depois. Um desses textos também trouxe a declaração do presidente da legenda sobre brigas internas entre mulheres. Até o fechamento desta reportagem, veículos de esquerda não haviam produzido cobertura própria do episódio, de modo que a leitura crítica ao arranjo aparece apenas nas falas reproduzidas pelas demais fontes.
Há pontos em aberto. A ex-primeira-dama não confirmou pessoalmente a candidatura, e o registro definitivo depende da convenção do PL do Distrito Federal, marcada para domingo, 2 de agosto, quando ela deve dividir o palanque com o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência. O nome do segundo suplente ainda depende de tratativas. Também não há data marcada para a conversa entre a ex-primeira-dama e o enteado, mencionada por ela no vídeo em que aceitou o pedido público de desculpas, nem definição sobre qual será o papel dela na campanha presidencial. Por fim, não foi divulgado o resultado dos exames médicos que a mantiveram fora do evento.