O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a Polícia Federal a acessar o material apreendido pela Polícia Civil de São Paulo em uma operação realizada em junho contra Karina Ferreira da Gama, proprietária da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse”, inspirado na vitória eleitoral de Jair Bolsonaro em 2018. A decisão foi assinada no dia 21 de agosto de 2026 e tornada pública na segunda-feira seguinte. Com o compartilhamento, os investigadores federais poderão confrontar documentos e equipamentos recolhidos pela polícia paulista com os repasses de emendas parlamentares que estão sob apuração no Supremo.
São duas frentes com objetos distintos e um ponto de contato. A investigação relatada por Dino apura se emendas parlamentares destinadas a entidades ligadas à empresária, entre elas o Instituto Conhecer Brasil, a Academia Nacional de Cultura, a Conhecer Brasil Assessoria e a própria Go Up Entertainment, acabaram financiando o longa-metragem. Essa apuração nasceu de informações levadas ao Supremo pelos deputados Tabata Amaral e Henrique Vieira, foi analisada inicialmente no âmbito da ADPF 854, que acompanha as regras de transparência das emendas, e em maio passou a tramitar em procedimento próprio e sob sigilo, quando o ministro apontou indícios de violação deliberada das regras de rastreabilidade. Já a Polícia Civil de São Paulo investiga suspeitas de fraude, superfaturamento e desvio no contrato entre o Instituto Conhecer Brasil e a Prefeitura de São Paulo para o programa WiFi Livre SP, orçado inicialmente em R$ 108 milhões e elevado a R$ 157,1 milhões após aditivos.
Os números do contrato municipal aparecem em toda a cobertura. O acordo previa 5 mil pontos de acesso gratuito à internet em comunidades da capital paulista, e cerca de 3,2 mil teriam sido efetivamente instalados. Os investigadores apuram ainda pagamentos antecipados de aproximadamente R$ 26 milhões sem a correspondente prestação de serviço, e suspeitam que parte dos valores recebidos pelo instituto tenha sido transferida para empresas relacionadas à empresária. Entre os parlamentares citados no caso está o deputado Mario Frias, produtor-executivo do filme, que destinou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil em 2024 e afirma que os recursos não foram usados na produção. A empresária declarou que o filme não recebeu dinheiro público nem recursos de empresas brasileiras, e a Prefeitura de São Paulo informou não ter identificado irregularidades até aquele momento.
As ênfases mudam conforme o lado. Veículos de esquerda destacaram o encontro entre dinheiro de emendas, um contrato público de conectividade em comunidades periféricas e uma obra de propaganda política, e sublinharam que as investigações federais seguem em andamento apesar de o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, ter afirmado que o caso está encerrado. A cobertura de centro relatou a mecânica processual e o efeito da decisão dentro do Supremo, registrando que interlocutores do governo veem no compartilhamento uma forma de acelerar apurações que consideram lentas, enquanto interlocutores do ministro André Mendonça, relator do inquérito sobre os repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao filme, dizem que aquela investigação está em estágio inicial e depende agora da Polícia Federal. Veículos de direita não registraram cobertura própria no conjunto analisado, e a leitura desse campo aparece apenas de forma indireta, pelas negativas dos investigados e pela desconfiança quanto ao uso político das apurações em ano de disputa presidencial.
O ambiente institucional é parte da história. Mendonça concentra hoje casos sensíveis para os dois principais campos eleitorais, incluindo as fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social e apurações ligadas a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, sobre quem Dino também foi sorteado relator em outra frente. Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam, sob reserva, que um tribunal dividido cria terreno para questionamentos futuros sobre a validade dos processos. Em entrevista no fim de semana, Lula afirmou que todas as investigações devem correr, inclusive as que envolvem seu filho, e que ninguém está acima da lei.
O que ainda não se sabe é o essencial.