O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, autorizou na segunda-feira, 24 de agosto, que a Polícia Federal acesse dados de uma investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo sobre a Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Com a decisão, o material apreendido pela polícia paulista passa a poder ser usado em uma apuração federal que examina se emendas parlamentares e recursos públicos participaram do financiamento da produção.
As duas investigações têm objetos diferentes. A da Polícia Civil de São Paulo apura suspeitas sobre contratos firmados pelo Instituto Conhecer Brasil com a Prefeitura de São Paulo. A federal analisa a possível destinação de emendas parlamentares ao filme. Entre os parlamentares citados está o deputado federal Mário Frias, do Partido Liberal de São Paulo, que destinou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil em 2024 e afirma que os recursos não foram usados na produção.
O caso nasceu da divulgação de áudios em que o senador Flávio Bolsonaro conversa com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso no âmbito do escândalo do Banco Master, e pede R$ 61 milhões para viabilizar o filme. Em uma das gravações, o senador diz ficar sem graça de cobrar o interlocutor e menciona contas a pagar no mês seguinte. Antes de as gravações virem a público, ele dizia não conhecer o banqueiro; depois, confirmou o contato e o pedido de recursos, negando irregularidade. Em 19 de maio, prometeu que a produtora e o fundo investidor apresentariam prestação de contas transparente em até 30 dias. O prazo venceu sem que os documentos fossem divulgados. Questionado no dia 24 de agosto, respondeu que a prestação de contas ocorreu dentro da investigação em São Paulo, que a imprensa vazou o material e que se trata de um filme privado, sem contrapartida pública.
A cobertura de centro registrou o fato de forma direta, tratando a autorização como abertura de uma nova frente de investigação sobre o filme e apontando que a medida tende a acirrar divergências internas no Supremo Tribunal Federal, já que outra vertente do caso tramita com o ministro André Mendonça. Veículos de esquerda enfatizaram a contagem do tempo: são cerca de cem dias desde a promessa de transparência, e a reportagem organiza as falas do senador como uma sequência de versões sucessivas, do desconhecimento inicial à tese de que o assunto já estaria encerrado. Esse enquadramento acrescenta ainda a suspeita, incorporada à apuração, de que parte dos recursos atribuídos ao aporte de Daniel Vorcaro teria sido enviada a um fundo nos Estados Unidos ligado ao advogado Paulo Calixto, com possível uso para despesas de Eduardo Bolsonaro no exterior. Não se identificou, no conjunto de fontes reunido, cobertura de veículos de direita sobre o episódio: a objeção ao alcance do inquérito aparece aqui apenas pelas declarações públicas dos próprios citados, e não como enquadramento editorial de terceiros.
Os dois lados que cobriram o caso convergem no essencial: a decisão existe, o compartilhamento de dados foi autorizado, os áudios são autênticos e a prestação de contas prometida publicamente não foi divulgada. Divergem no peso atribuído ao silêncio. Na leitura de esquerda, a ausência de documentos é o próprio fato relevante e indica opacidade sobre dinheiro que pode ter origem pública. Na chave do centro, o dado central é processual: a apuração ganhou um instrumento novo e passa a cruzar material de duas polícias.
O que ainda não se sabe é o mais importante. Não há, até aqui, acusação formal contra o senador, e não foi divulgado quanto do custo do filme veio de emendas, se é que veio. Também seguem sem resposta pública quais empresas receberam recursos, qual foi o custo total da produção, em que fase está a apuração sobre a remessa ao fundo nos Estados Unidos e como o Supremo Tribunal Federal resolverá a convivência entre as duas frentes do caso. A produtora, o fundo investidor e a defesa do banqueiro não apresentaram manifestação sobre os pontos levantados.