O senador Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal à Presidência da República, reagiu com irritação nesta segunda-feira, 24 de agosto, ao ser novamente questionado sobre a prestação de contas do filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A pergunta foi feita por jornalistas depois da reunião quinzenal da diretoria da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, na capital paulista. "Vocês vão parar no tempo?", respondeu o senador, antes de transferir a cobrança ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Quem tem que prestar contas não sou eu, é o Lula que tem que prestar contas".
A cobrança nasce de uma promessa do próprio candidato. Cerca de três meses antes, depois da divulgação de um áudio em que pedia recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para bancar o longa, Flávio afirmou estar disposto a tornar público o contrato da produção e anunciou um relatório com a origem e o uso do dinheiro. O relatório não veio. Agora, ele sustenta que a responsabilidade é da produtora Go Up Entertainment, que assinou o contrato de execução, e que as informações financeiras já foram entregues no âmbito de uma investigação em curso em São Paulo. Perguntado se divulgaria o contrato, não respondeu de forma direta, alegando que se trata de uma relação entre agentes privados, com dinheiro de fundo privado e sem contrapartida pública.
Os fatos processuais são os mesmos em toda a cobertura. Um documento anexado ao inquérito que tramita na Justiça de São Paulo aponta custo aproximado de R$ 75 milhões para a produção, dos quais cerca de R$ 54 milhões teriam sido gastos no exterior e R$ 20,9 milhões no Brasil, sem notas fiscais e sem detalhamento dos valores pagos aos artistas. Em 21 de julho foi aberto um inquérito sob relatoria do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, para apurar os repasses do banqueiro. Em paralelo, o ministro Flávio Dino relata uma apuração sobre emendas parlamentares destinadas ao Instituto Conhecer Brasil, ligado à sócia da produtora, e autorizou a Polícia Federal a acessar o material apreendido pela Polícia Civil paulista contra a Go Up.
As divergências aparecem no enquadramento. Veículos de esquerda descreveram a resposta como fuga sistemática, anotando que o candidato acusou o presidente e pessoas do entorno do governo no caso Banco Master sem apresentar provas durante a entrevista, e que a promessa de transparência feita em maio nunca se materializou. A cobertura de centro relatou o episódio de forma factual e o confrontou com o histórico documental: registrou a fala na íntegra, o valor pedido ao banqueiro, a negativa de recuo do candidato e o fato de que o laudo entregue à Justiça não identifica os financiadores nem traz recibos. Veículos de direita enfatizaram o argumento de que se trata de contrato privado sem dinheiro público e deram espaço à agenda econômica do dia, na qual o senador foi aplaudido de pé ao criticar carga tributária, endividamento das famílias e burocracia, e recebeu apoio público do presidente da federação industrial, Paulo Skaf.
O episódio também alcança a disputa eleitoral. No mesmo dia, o candidato pediu que eleitores de Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury migrassem seus votos já no primeiro turno, negou ter firmado acordo de mandato único em troca de engajamento do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e disse manter com ele um pacto para "resgatar o Brasil". Também afirmou que indicaria quatro ministros ao Supremo Tribunal Federal contrários ao aborto e às drogas.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há informação pública sobre quem são todos os financiadores do filme, quanto foi pago a cada artista, por que R$ 54 milhões teriam sido gastos fora do país e onde estão as notas fiscais correspondentes. Segue em aberto se o contrato com o banqueiro será algum dia divulgado, se recursos da produção custearam a permanência do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, hipótese que ele nega, e se emendas parlamentares acabaram financiando indiretamente o longa. A defesa da sócia da produtora não se manifestou.