Flávio Bolsonaro (PL-RJ) abriu no domingo, 16 de agosto de 2026, a campanha à Presidência da República com um ato na Praia de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, a 48 dias do primeiro turno. O senador discursou de cima de um trio elétrico ao lado do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, do coordenador político da campanha, o senador Rogério Marinho, e do candidato a vice, o deputado Alfredo Gaspar. A mulher do candidato, a dentista Fernanda Bolsonaro, foi a única familiar presente e chegou a escrever com batom, nas costas do marido, a frase que repetiu em um discurso rápido no palanque.
O tamanho do público ficou abaixo do que a campanha projetava. Estimativa da Universidade de São Paulo apontou 8,9 mil pessoas, número distante das manifestações convocadas por Jair Bolsonaro nos últimos anos, que foram de 4 mil participantes em Brasília, o menor registro, a 300 mil na Avenida Paulista, o maior. As duas coberturas reunidas sobre o evento convergem nesse ponto, na escolha simbólica de Copacabana como território histórico do bolsonarismo, na composição do palanque e na ausência da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que não compareceu e não foi citada por nenhum orador.
A cobertura de centro leu o ato como um teste de mobilização e concluiu que o senador ainda não construiu identidade política própria. Segundo essa análise, a campanha se ancora na nostalgia do bolsonarismo, reproduz o formato de rua consagrado pelo pai e corre o risco de falar apenas ao eleitorado já convertido, sem ampliar a base para além do núcleo formado em 2018. O argumento é que Flávio Bolsonaro sempre teve perfil voltado à negociação institucional, e não à mobilização de massas, o que explicaria a distância entre o público reunido e o alcance dos atos anteriores da família.
Veículos de esquerda organizaram a cobertura em torno de dois flancos. O primeiro é a tentativa do candidato de se descolar do tarifaço imposto por Donald Trump ao Brasil, tema em que ele se apresentou como o único capaz de sentar à mesa com Estados Unidos, China, Israel, Índia e Argentina para fechar acordos comerciais. Nessa leitura, o senador deslocou o vocabulário de soberania para a segurança pública ao prometer tratar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações terroristas, e a mensagem foi tensionada por uma bandeira dos Estados Unidos erguida perto dele enquanto o hino nacional era executado. O segundo flanco é o eleitorado feminino: o candidato prometeu cadeia a agressores e citou a violência contra mulheres em um momento em que setores do bolsonarismo pressionam contra a Lei Maria da Penha, ao mesmo tempo em que evitou qualquer menção a Michelle Bolsonaro. Essa cobertura também registrou a defesa pública do vice Alfredo Gaspar, alvo de acusações de corrupção e de estupro, apresentadas pelo candidato como notícia falsa.
Nenhum veículo de direita integra o conjunto de cobertura reunido sobre o ato, de modo que a leitura favorável ao candidato aparece apenas pelas falas registradas no palanque, sem análise própria desse campo. Pelo conteúdo do discurso, o eixo defendido ali é o da autoridade estatal contra o crime organizado, da abertura comercial e da manutenção do repertório de bandeiras nacionais e do jargão sobre Deus, pátria, família e liberdade, repetido no encerramento por Douglas Ruas, candidato ao governo do Rio de Janeiro.
Ainda não se sabe qual foi o público oficial do ato, já que só há a estimativa universitária e nenhuma contagem de órgão de segurança. Também segue em aberto se Michelle Bolsonaro participará da campanha, como a classificação de facções como organizações terroristas seria operacionalizada em lei, e qual a situação processual das acusações contra o candidato a vice, que não se manifestou diretamente sobre elas no evento.