O senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República em 2026, atravessa uma crise dentro do próprio partido em meio à tentativa de reconquistar o eleitorado feminino. O estopim foi a divulgação, pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, de vídeos em que ela relata desavenças com o enteado e diz ter sido maltratada e desrespeitada. Para reagir, Flávio convocou para 1º de julho, em Brasília, um encontro com lideranças femininas da direita, com o objetivo de discutir propostas voltadas às mulheres.
A cobertura de centro relatou que, na véspera do encontro, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, reuniu-se com Michelle para tentar apaziguar a crise no partido e na pré-campanha. Havia inclusive a expectativa de que Valdemar tentasse convencer a ex-primeira-dama a comparecer ao ato, o que era considerado improvável. Ganhou força, nesse contexto, a discussão de lançar uma mulher como vice de Flávio, com o nome da própria Michelle e o da vereadora de Fortaleza Priscila Costa entre os cotados. Segundo pesquisas, o senador enfrenta dificuldades junto a mulheres e evangélicos, segmentos em que Michelle mantém forte influência.
A crise se entrelaça com a disputa eleitoral no Ceará. Está em jogo o apoio do PL a Ciro Gomes (PSDB) na corrida ao governo estadual e a definição dos nomes ao Senado, com impasse entre o deputado estadual Alcides Fernandes e a vereadora Priscila Costa. Michelle manifestou oposição à aliança com Ciro e defendeu Priscila e o senador Eduardo Girão (Novo). Tanto Michelle quanto Flávio anunciaram agenda no estado para 10 de julho, o mesmo dia, sinalizando a persistência do racha.
Veículos de esquerda enfatizaram outra dimensão do episódio: o desgaste de Flávio com as eleitoras. Destacaram que o jornalista bolsonarista Paulo Figueiredo, radicado nos Estados Unidos, afirmou que mulheres votam muito mal e que o senador não reagiu à declaração. Nessa leitura, o silêncio ampliou o atrito não só com Michelle, mas também com a senadora Damares Alves, atacada nas redes sem que Flávio saísse em sua defesa. A mesma cobertura ressaltou uma pesquisa Nexus/BTG que apontou rejeição de 58% ao senador entre mulheres, público que representa quase 53% do eleitorado, e classificou Flávio como figura da extrema direita.
Veículos alinhados à direita, por sua vez, enfatizaram a reorganização em curso. A deputada estadual Dra. Silvana, líder do PL na Assembleia cearense, afirmou que o partido passa por uma arrumação para em seguida dar a resposta que resultaria na eleição de Flávio, e sustentou que a sigla abriga mulheres com posições próprias e autoridade interna. Nessa chave, o convite a Damares para colaborar em um programa de governo voltado às mulheres e a articulação de uma vice mulher aparecem como movimentos de recomposição da chapa, e não como sinal de esgotamento.
A cobertura de centro procurou equilibrar os dois ângulos, registrando as notas públicas de Michelle, as falas de lideranças locais e os impasses ainda em aberto sobre as candidaturas ao Senado. O que ainda não se sabe é se a reunião de Valdemar com Michelle produzirá uma pacificação efetiva, se a ex-primeira-dama e Damares participarão da estratégia de Flávio, quem de fato encabeçará a chapa ao Senado no Ceará e se a vinda de Michelle ao estado em 10 de julho será confirmada. Também permanece em aberto o efeito concreto da crise sobre a intenção de voto do pré-candidato entre as mulheres.