A Polícia Federal encontrou no celular da lobista Roberta Luchsinger uma conversa em que Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, então chefe de gabinete da Presidência da República, cobra a entrega de um quadro avaliado em 100 mil euros. Na mensagem de 19 de dezembro de 2024, às 12h59, ele pergunta: "E meu quadro?? Kkk". A lobista responde que a obra seria entregue na semana seguinte, que estava sendo emoldurada e que se encontrava no Carrousel du Louvre, centro comercial no complexo do Museu do Louvre, em Paris. O relatório policial registra a afirmação de que a peça valeria 100 mil euros, mas não informa se ela chegou às mãos do ex-assessor.
O diálogo integra os inquéritos que apuram suposto tráfico de influência envolvendo Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Marcola ocupou a chefia de gabinete desde janeiro de 2023 e deixou o cargo em 21 de julho de 2026, depois que vieram a público pagamentos feitos pela lobista a ele. Sua defesa sustenta que os valores eram um empréstimo pessoal já contraído e quitado, afirma que ele devolveu R$ 249 mil e nega que tenha recebido obra de arte ou objetos de valor. Segundo o advogado, o "kkk" ao fim da mensagem mostra que não havia cobrança de fato.
As quatro reportagens do conjunto convergem em pontos verificáveis. As mensagens existem e estão no material da Polícia Federal. Elas não se limitam ao quadro: a lobista enviava ao chefe de gabinete listas de pendências de interesse de clientes, entre elas uma pauta de canabidiol com o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swerdenberger Barbosa, conhecido como Berger, e a dificuldade de conseguir reunião com a presidente da Petrobras, Magda Chambriard. Em julho de 2024, diante de uma dessas listas, Marcola responde que já havia se reunido com Berger. Os investigadores também localizaram uma minuta de contrato do Ministério da Saúde enviada pela lobista ao assessor, e o registro da compra de joias de diamante avaliadas em R$ 9,2 mil. A Petrobras informou que Magda Chambriard jamais tratou de qualquer assunto com as pessoas citadas na investigação.
A cobertura de centro, que responde pela maior parte do material, concentrou-se em reconstituir os diálogos com data e horário, atribuir cada afirmação ao relatório policial e delimitar o que a apuração ainda não estabeleceu, além de publicar na íntegra as notas das defesas. Uma peça analítica desse mesmo bloco foi além e sustentou que a versão inicial do ex-assessor, a de uma amizade com empréstimo em momento de dificuldade financeira, não se sustenta diante das mensagens, porque intermediar reuniões de empresários com o Ministério da Saúde ou com a Petrobras estaria fora do escopo de um chefe de gabinete da Presidência. Veículos de direita deram destaque à aritmética do episódio, ressaltando que o valor da obra representaria quase três vezes as despesas pessoais de R$ 217 mil já bancadas pela lobista, e ancoraram o caso no entorno direto do presidente. Até o fechamento desta edição, veículos de esquerda não haviam publicado cobertura própria do episódio; o contraponto disponível vem das notas das defesas, que apontam vazamento seletivo dos autos, negam qualquer encaminhamento de documento sobre compras ou licitações e afirmam haver objetivo de interferir no processo eleitoral. A defesa do filho do presidente respondeu deslocando o debate para investigações que envolvem Flávio Bolsonaro, argumento que nenhuma das reportagens checou.
Permanecem em aberto pontos centrais. Não se sabe se o quadro foi entregue, nem quem o comprou. O valor exato das transferências feitas a Marcola não é conhecido, com estimativas em torno de R$ 80 mil de um lado e a devolução declarada de R$ 249 mil de outro. Também não está esclarecido se algum contrato de canabidiol chegou a ser assinado pelo Ministério da Saúde, se houve dispensa de licitação e em que fase estão os três inquéritos que miram Fábio Luís Lula da Silva. Nenhuma das reportagens registra manifestação do Palácio do Planalto ou do Ministério da Saúde sobre as mensagens, e não há indiciamento anunciado até o momento.