A atriz Regina Duarte afirmou que não pretende voltar a ocupar cargo público no Executivo federal. A declaração veio em entrevista concedida durante a divulgação da peça “A Filha da…”, que estreia em São Paulo e marca o reencontro dela nos palcos com a filha, a também atriz Gabriela Duarte, depois de duas décadas. Regina comandou a Secretaria Especial da Cultura no governo de Jair Bolsonaro em 2020 e deixou o posto após 74 dias.
Perguntada sobre o custo pessoal daquela passagem, respondeu que não houve nenhum. “Saí de lá depois de 74 dias, voltei para minha vida e segui magnificamente bem”, disse. Sobre uma eventual volta a um ministério ou a uma secretaria, foi direta: “Não, definitivamente não. Senão, eu teria ficado mais lá, lutado para proporcionar alguma coisa para a classe artística, para o povo brasileiro”. Em seguida, matizou a recusa ao afirmar que segue “aberta” ao que vier. E fechou a porta a uma pergunta específica: a de em quem votará na eleição presidencial de 2026, na qual Flávio Bolsonaro é candidato pelo Partido Liberal. “Eu não vou responder em quem eu vou votar”, afirmou. A atriz já declarou admiração pelo ex-presidente, mas não estendeu a resposta ao filho dele.
As coberturas convergem em outro ponto: o tom da conversa endureceu à medida que as perguntas se aproximaram da política, e a equipe das artistas interrompeu a entrevista mais de uma vez. Convergem também na crítica que Regina fez ao remake da novela “Vale Tudo”, clássico de 1988 em que viveu a personagem Raquel Acioli. “Pegar o título de um ícone da teledramaturgia brasileira e fazer as mudanças que foram feitas”, reclamou, ao dizer que não reconhece a personagem na nova versão.
A cobertura de centro foi a que reconstituiu o episódio de 2020 com mais detalhe: o encerramento de uma entrevista televisiva ao vivo quando lhe exibiram um vídeo da atriz Maitê Proença cobrando soluções para a classe artística na pandemia, a declaração sobre as mortes provocadas pela ditadura militar, a carta aberta assinada por mais de 500 artistas em repúdio às falas, o pedido de demissão em meio ao desgaste e a promessa, nunca cumprida, de que ela comandaria a Cinemateca Brasileira. Essa cobertura também registrou que Gabriela Duarte já criticou publicamente a atuação do governo Bolsonaro na pandemia e que, durante a entrevista, orientou a mãe a não responder às perguntas sobre política.
Veículos de direita deram outro recorte. Um deles resumiu a fala como reação a cobranças da classe artística e sublinhou que a ex-secretária nega prejuízo pessoal ou profissional, deixando de fora a sequência de controvérsias de 2020 e o contexto da saída do cargo. Outro centrou a matéria no desabafo de Gabriela Duarte nas redes sociais, no qual a filha classificou a condução da entrevista como “bastante deselegante” e questionou o jornalismo: “Se o clique vale mais que o contexto, se a repercussão vale mais que a escuta e o conflito mais que a história…”. Nessa leitura, o problema não está na resposta da atriz, e sim na insistência da imprensa e no sensacionalismo.
Nenhum veículo de esquerda cobriu o caso até agora, e é aí que fica o ponto cego. A leitura que trataria os 74 dias na Secretaria Especial da Cultura como episódio de política pública sujeito a cobrança, e não como constrangimento pessoal de uma artista, aparece apenas de forma indireta, nas falas reproduzidas de quem assinou a carta de repúdio em 2020 e na crítica que a própria filha fez ao governo durante a pandemia.
Permanece sem resposta se Regina Duarte apoiará Flávio Bolsonaro, se aceitaria convite para função pública fora do Executivo federal e o que significa dizer que a política “está em aberto” logo depois de descartar novos cargos. Nenhuma das matérias registra resposta do veículo que conduziu a entrevista às críticas feitas pela filha da atriz, nem manifestação de entidades da classe artística sobre as declarações desta semana.