O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato do partido à Presidência da República, definiu uma condição para participar dos debates televisivos da eleição de 2026: só irá àqueles em que a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estiver confirmada. A decisão partiu do núcleo duro da campanha e coloca em dúvida a ida do senador já ao primeiro encontro do calendário, marcado para 23 de agosto em uma emissora aberta. A data havia sido remarcada justamente para não coincidir com o lançamento da candidatura do presidente, mas até agora nenhuma das duas campanhas confirmou presença, embora ambas tenham participado das reuniões preparatórias e aceitado as regras.
A cobertura de centro relatou que o cálculo da campanha se apoia em dois pilares. O primeiro é o quadro das pesquisas. No levantamento Datafolha divulgado em 24 de julho, o presidente aparece com 40% das intenções de voto no primeiro turno e o senador com 32%, enquanto Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) oscilam entre 3% e 4%. O segundo é o risco de exposição: sem o presidente no palco, avaliam auxiliares, o senador se tornaria o alvo prioritário dos ataques de todos os demais concorrentes. Reportagens de bastidor acrescentaram um terceiro elemento, admitido apenas em reserva: parte do entorno teme o desempenho do candidato num confronto ao vivo e lembra que, num debate municipal em 2016, ele passou mal durante a transmissão. Há quem discorde da estratégia dentro da própria campanha e defenda mais exposição, sob o argumento de que o senador precisa responder publicamente a temas como as investigações do caso Banco Master e o esquema de rachadinha em seu antigo gabinete estadual.
Veículos de direita enfatizaram a racionalidade estratégica da decisão e a apresentaram como escolha de quem já está virtualmente classificado para o segundo turno. Nessa cobertura, ganhou espaço a fala do presidente nacional do PL, para quem não faz sentido dar palco a candidatos com 4% ou 5% e o confronto que interessa é apenas com o presidente. Foi destacado também que, ao contrário de 2018 e 2022, não há nesta disputa um candidato de perfil moderado capaz de funcionar como ponte para o eleitor indeciso, o que, segundo esse argumento, reduziria ainda mais o retorno de participar. Os trechos sobre o temor de mau desempenho e sobre as investigações não apareceram nessa cobertura.
Veículos de esquerda não produziram cobertura própria do episódio no conjunto de matérias analisado. A crítica mais dura, portanto, veio de dentro do próprio campo da direita. Em entrevista a uma rádio em 30 de julho e depois na convenção de seu partido, em 1º de agosto, o pré-candidato do PSD acusou os dois líderes de brincarem de esconde-esconde, afirmou que quem não tem coragem de ir a um debate tem muito a esconder e pouco a mostrar, e questionou a experiência administrativa do senador. A cobertura de centro registrou ainda que o movimento não é unilateral: o presidente sinaliza comparecer a no máximo dois debates no primeiro turno, prioriza sabatinas com jornalistas e já declarou que não vai a encontros que não discutam propostas. Segundo relatos de bastidor, as duas campanhas líderes negociam entrevistas individuais com emissoras e veículos impressos para preservar a imagem dos candidatos, num quadro em que os índices de rejeição de ambos estão altos. Para o segundo turno, os dois já demonstraram disposição de debater, cenário em que não haveria adversários menores no palco.
O que ainda não se sabe é o essencial. Nenhum dos dois candidatos formalizou recusa ou confirmação às emissoras, de modo que o debate de 23 de agosto segue de pé sem garantia de que os dois primeiros colocados estarão lá. Também não há informação pública sobre quantos debates estão efetivamente agendados no primeiro turno, quais veículos negociam as sabatinas que substituiriam esses encontros, nem se as candidaturas que aparecem atrás nas pesquisas pretendem recorrer à Justiça Eleitoral ou às emissoras para forçar a presença dos líderes. Por fim, não está claro se o formato de sabatina individual será aceito como equivalente pelas campanhas menores, que perdem com a ausência dos dois nomes mais conhecidos da disputa.