O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, autorizou na terça-feira, 4 de agosto de 2026, a abertura de um novo inquérito da Polícia Federal para apurar a suposta atuação de um grupo de pessoas em negócios ilícitos com órgãos do governo federal. O empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está entre os citados. Os detalhes do procedimento correm sob segredo de justiça e não foram divulgados. No mesmo despacho, o ministro determinou a abertura de outra apuração, desta vez sobre o vazamento de informações sigilosas relativas às investigações em curso, atendendo a um pedido feito pela defesa do empresário.
A cobertura de centro relatou os fatos da decisão e acrescentou a informação que mais altera a moldura do caso: segundo apuração própria, os alvos principais do novo inquérito são o ex-chefe do Gabinete Pessoal da Presidência, Marco Aurélio Santana Ribeiro, hoje coordenador da campanha do presidente, e a empresária Roberta Luchsinger, já investigada por sua relação com Antonio Carlos Camilo Antunes, apontado como operador do esquema de descontos indevidos em benefícios do INSS. Nessa leitura, o filho do presidente aparece como personagem lateral. A suspeita da Polícia Federal é de que transferências em dinheiro da empresária ao ex-assessor seriam contrapartida pela obtenção de contratos com o governo. Ribeiro afirma que os recursos correspondem a um empréstimo de R$ 249 mil, já quitado.
Há convergência entre todos os lados sobre o núcleo factual. Antes desta decisão já corriam outras apurações envolvendo o mesmo entorno: uma sobre suposto tráfico de influência em contrato de cannabis medicinal com o Ministério da Saúde e outra sobre supostas irregularidades na Dataprev, estatal que centraliza os dados de aposentadorias. Toda a cobertura registra ainda que a defesa nega irregularidades. Em nota, os advogados do empresário afirmaram ter recebido a notícia com absoluta serenidade e disseram que ele comprovará não ter relação direta ou indireta com qualquer ilegalidade.
A divergência começa no que cada lado escolhe destacar. Veículos de esquerda enfatizaram o segundo despacho, o que manda apurar o vazamento, e deram relevo à denúncia da defesa de que haveria instrumentalização de setores da Polícia Federal a serviço de interesses políticos e eleitorais, em prejuízo da imparcialidade dos procedimentos criminais. Nessa cobertura aparecem também dúvidas sobre a solidez das provas que embasaram a divisão dos inquéritos. Veículos de direita enfatizaram o outro extremo: um deles abandonou o fato do dia para tratar da proximidade entre a empresária investigada e o próprio ministro que decide o caso, lembrando que ela havia celebrado publicamente, em 2023, a indicação dele ao Supremo pelo presidente. Outro veículo do mesmo campo titulou que o ministro mandou abrir inquérito para defender o filho do presidente, embora o próprio texto registre que a abertura atendeu a pedido da Polícia Federal.
As contagens também não batem. Parte da cobertura fala em três inquéritos em curso contra o empresário; outra parte fala em quatro procedimentos, sendo três em que ele é investigado e um em que figura como suposta vítima do vazamento. Há divergência ainda sobre a autoria das autorizações anteriores, atribuídas por um dos veículos ao ministro André Mendonça, em decisões da semana anterior.
O que ainda não se sabe é substancial. O objeto concreto do novo inquérito permanece sob segredo de justiça, sem que se conheçam os contratos, os órgãos e os valores sob suspeita. Não está esclarecido qual é exatamente o papel atribuído ao filho do presidente no procedimento, se alvo central ou personagem citado. Também não há resposta pública da Polícia Federal à acusação de vazamento seletivo, nem prazo conhecido para a conclusão de qualquer das apurações. Nenhum dos casos chegou a acusação formal.