O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República pelo PL, ligou para o presidente nacional do PP, Ciro Nogueira, e marcou uma reunião presencial em Brasília na tentativa de fechar uma aliança com a federação formada por PP e União Brasil. O telefonema ocorreu na segunda-feira (20), pouco antes da convenção estadual da federação em São Paulo, realizada na Assembleia Legislativa paulista. O encontro entre os dois ficou acertado, a princípio, para esta quarta-feira (22).
Na mesa da negociação está uma troca explícita. O pré-candidato deve oferecer o posto de vice na chapa presidencial à federação e, em contrapartida, busca tempo de propaganda de rádio e televisão e estrutura financeira de campanha. Caso o acordo avance, o nome mais citado para a vaga de vice é o da deputada federal Simone Marquetto, do PP de São Paulo. A avaliação de lideranças partidárias é que uma candidata mulher poderia recuperar parte do eleitorado feminino e religioso que se afastou do pré-candidato após a disputa pública com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Os dois lados da cobertura convergem nos fatos centrais e também no ceticismo quanto ao desfecho. Veículos de direita enfatizaram que se trata de uma última cartada, movida pela necessidade de mostrar força e competitividade num cenário polarizado, e destacaram que o apoio do PP significaria mais tempo de propaganda e mais recursos, os dois fatores apontados por dirigentes como decisivos para a viabilidade da candidatura. A cobertura de centro relatou os mesmos passos com contexto adicional: sem aliados, concorrendo apenas pelo PL, o pré-candidato teria cerca de 20% menos tempo de televisão do que o presidente Lula, e a resistência da cúpula do PP estaria ligada aos reflexos do chamado caso Vorcaro, que aproximou e depois afastou os dois políticos sem levar a um rompimento formal.
Há também um cálculo regional em jogo. Em São Paulo, PP e União Brasil já apoiam a candidatura bolsonarista, e a deferência do senador na convenção paulista, com elogios públicos à deputada cotada para vice e ao próprio presidente do PP, chamou a atenção dos presentes. No Piauí, estado de Ciro Nogueira, o PL retirou sua candidatura ao governo estadual e apoiará a chapa do PP, que tem o senador como candidato à reeleição. Esse acerto é apresentado como o principal trunfo do PL para tentar convencer o dirigente na conversa desta semana.
A divergência de ênfase entre os lados é de tom, não de fato. A cobertura de direita coloca o foco na articulação e na chance de somar estrutura ao palanque de oposição; a de centro sublinha o pessimismo dos interlocutores do PP e a hipótese mais provável hoje, a de que a federação fique liberada para apoiar candidaturas diferentes em cada estado, mantendo a neutralidade na disputa nacional. Até o momento, veículos de esquerda não trataram do encontro, e a leitura crítica sobre a natureza fisiológica desse tipo de acordo, em que se negociam cargo, tempo de TV e dinheiro de campanha sem menção a programa de governo, permanece ausente da cobertura disponível.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há confirmação de que a reunião de fato ocorreu nem qual foi seu resultado, não está definido se a federação decidirá em instância nacional ou deixará a escolha para os diretórios estaduais, e o nome da vice segue sem qualquer anúncio oficial. Também não foram detalhados os termos concretos da eventual coligação, como divisão de tempo de propaganda, participação no fundo eleitoral ou compromissos de palanque nos estados.