Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente da República, é alvo de três inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal, todos abertos para apurar suspeita de tráfico de influência. Dois deles, sob relatoria do ministro André Mendonça, investigam uma suposta atuação para intermediar interesses privados junto ao Ministério da Saúde, em negociação envolvendo a comercialização de cannabis medicinal, e junto à Dataprev, a estatal de processamento de dados da Previdência. O terceiro, autorizado pelo ministro Flávio Dino, apura se o nome do presidente foi usado para favorecer negócios com o governo federal.
A cobertura de centro registrou que as apurações se cruzam com o esquema de descontos irregulares em aposentadorias e pensões. A Polícia Federal aponta como um dos principais operadores desse esquema o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, preso desde setembro de 2025. A empresária Roberta Luchsinger, também citada nos inquéritos, aparece em um segundo episódio: o ex-chefe de gabinete da Presidência confirmou ter recebido dela 249 mil reais, na forma de empréstimo pessoal que diz ter devolvido integralmente, com contrato e sigilos bancário e fiscal colocados à disposição da Justiça. O ex-assessor ocupou a chefia de gabinete entre janeiro de 2023 e julho deste ano, quando passou a atuar na campanha eleitoral.
Os dois pontos em que a cobertura converge são o estágio processual e a reação do Palácio do Planalto. Não há denúncia formal apresentada contra o filho do presidente: os três procedimentos estão em fase de investigação. E o presidente tratou o assunto publicamente, ao dizer que as apurações devem seguir seu curso e que, se houver culpa, o filho pagará o que todo mundo paga quando erra. A defesa nega qualquer irregularidade e informou que o investigado, que mora na Espanha com a família desde o início do caso, pode voltar ao Brasil para depor à Polícia Federal se for convocado.
A divergência aparece no peso político atribuído ao episódio. Veículos de direita enfatizaram o acúmulo de frentes, três inquéritos simultâneos na mais alta corte do país, a proximidade do investigado com operadores já presos e a chegada do caso ao gabinete presidencial pela via do empréstimo de 249 mil reais, num arranjo em que o acesso ao governo teria virado mercadoria. Nesse enquadramento, a resposta pragmática do presidente não encerra o problema, porque responsabilidade institucional não se esgota no parentesco. Veículos de esquerda praticamente não cobriram o episódio até aqui, e o enquadramento que esse campo costuma adotar é o inverso: inquérito não é acusação, nenhuma peça divulgada demonstra vantagem obtida, e a abertura do terceiro procedimento a dois meses de campanha favorece adversários que também respondem a questionamentos sobre corrupção. A cobertura de centro ficou entre os dois polos, reportando a avaliação de aliados do próprio governo de que o caso do filho tende a desgastar mais do que o do ex-chefe de gabinete, justamente porque o parentesco amplia a repercussão junto à opinião pública.
O pano de fundo é eleitoral e apertado. Pesquisa divulgada durante a semana aponta 44 por cento das intenções de voto para o presidente em um eventual segundo turno contra 39 por cento para Flávio Bolsonaro, ante 45 a 37 no levantamento anterior, variações dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Uma coluna de análise classificada como de direita observou que os dois principais candidatos chegam à disputa cercados de dúvidas envolvendo corrupção, e que os demais concorrentes tendem a explorar essa fragilidade.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não foi divulgado quais elementos concretos levaram o ministro Flávio Dino a autorizar o terceiro inquérito, nem se há prova de vantagem financeira efetivamente recebida. Não há data marcada para o depoimento do filho do presidente à Polícia Federal, nem definição sobre se ele deporá no Brasil ou por outro meio. Também não se conhece o prazo de conclusão dos procedimentos, nem se a Procuradoria-Geral da República pretende oferecer denúncia antes do primeiro turno. Polícia Federal, Procuradoria e Supremo Tribunal Federal não se manifestaram publicamente sobre o estágio das apurações.