O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, na quinta-feira, 30 de julho, que o governo dos Estados Unidos deve tentar interferir nas eleições brasileiras deste ano para favorecer o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência. “Eles vão tentar interferir aqui, tentando ajudar o lado de lá a ganhar as eleições”, disse em entrevista a um podcast. O presidente citou nominalmente o presidente americano, Donald Trump, e, com ênfase ainda maior, o secretário de Estado Marco Rubio. Em seguida, relativizou: “Eu não tô preocupado com isso. A minha conversa pessoal com ele foi muito boa, mas não é o que acontece quando a gente sai da reunião.”
A declaração se apoia em um episódio concreto ocorrido dias antes. O Itamaraty negou visto a dois funcionários do Departamento de Estado americano que pretendiam vir ao Brasil avaliar a integridade do sistema eleitoral. Segundo relato de um jornal estrangeiro reproduzido pela cobertura brasileira, a intenção seria lançar dúvidas sobre a transparência do processo. A iniciativa veio depois de o principal adversário do presidente na disputa questionar, diante de embaixadores, a segurança das urnas eletrônicas e sugerir que outros países enviassem observadores para acompanhar a votação.
A cobertura de centro relatou esses fatos de forma encadeada e com atribuição a fontes: as citações do presidente, o ato diplomático de recusa dos vistos, o questionamento das urnas e o contexto de tensão bilateral criado pela nova etapa do tarifaço americano, anunciada em meados do mês. Esses veículos também registraram que, dentro de alas do governo brasileiro, voltou a ser considerada a hipótese de novas sanções em resposta.
Veículos de direita enfatizaram outro ângulo do mesmo discurso: o tom de campanha e os xingamentos. Deram destaque ao trecho em que o presidente chamou o senador e seu irmão, ex-deputado, de “filhos do Satanás” e afirmou que eles foram aos Estados Unidos “trabalhar contra o Brasil”, em referência ao tarifaço. Nessa leitura, a acusação de ingerência estrangeira é apresentada sem prova documental pública, e barrar observadores externos soa mais como recusa a escrutínio do que como defesa de soberania.
Veículos de esquerda não aparecem entre as fontes que cobriram este episódio específico até o momento. O ângulo que esse campo costuma enfatizar chega ao leitor apenas pela voz do próprio presidente: a ideia de que a soberania nacional está sob ataque, de que decidir quem governa o Brasil cabe exclusivamente ao eleitorado brasileiro e de que semear dúvida sobre as urnas eletrônicas serve para deslegitimar antecipadamente o resultado.
O episódio não é isolado. Na véspera da entrevista, em convenção que oficializou o vice na chapa governista, o presidente já havia dito que “enquanto eu for presidente, ninguém de fora vai meter o bedelho nas eleições brasileiras”. Na sexta-feira, 31, em convenção partidária no Ceará, repetiu que não quer ajuda externa: “Se quiser vir o Trump, que venha. Se quiser vir o Milei, que venha. A única ajuda que eu quero é a ajuda do povo brasileiro.” As menções ao presidente argentino, Javier Milei, respondem à participação dele na convenção que lançou a candidatura adversária, quando chamou o presidente brasileiro de “presidiário” e ofendeu um ministro do Supremo Tribunal Federal. O Brasil chegou a convocar seu embaixador em Buenos Aires após as declarações.
O que ainda não se sabe é decisivo. Nenhum dos textos traz manifestação do Departamento de Estado americano ou da Casa Branca sobre a acusação de interferência, nem resposta da pré-candidatura citada como beneficiária. Também não há detalhamento sobre quais sanções estariam em estudo dentro do governo brasileiro, sobre eventuais desdobramentos formais da negativa de vistos e sobre se houve resposta oficial da Argentina após a convocação do embaixador. Uma pesquisa divulgada no mesmo período apontava disputa competitiva no primeiro turno, o que mantém em aberto o peso eleitoral efetivo da controvérsia.