O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou uma entrevista à emissora Record, concedida em 23 de agosto de 2026, para tratar de dois assuntos que dominam a agenda política do começo da campanha eleitoral: os inquéritos que alcançam seu filho Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e a promessa de acabar com a chamada taxa das blusinhas, o Imposto de Importação sobre remessas internacionais de até 50 dólares.
Sobre o filho, o presidente afirmou que trata as apurações com seriedade, que cabe a ele garantir liberdade de trabalho às instituições e que não atua como juiz, procurador ou delegado. Disse que orientou Lulinha a apresentar sua versão dos fatos e que, se cometeu erro, ele será julgado, punido ou inocentado. Sem citar o ex-presidente Jair Bolsonaro, acrescentou que não tenta proibir investigação, não ameaça demitir ministros por causa de apurações e não pune delegados responsáveis pelos casos. Também afirmou que quem causou prejuízo aos cofres públicos terá de pagar.
A cobertura de centro relatou o contexto dos inquéritos: eles tramitam no Supremo Tribunal Federal e apuram se o filho do presidente praticou tráfico de influência e abriu portas do governo para a empresária Roberta Luchsinger, sócia de uma consultoria que tentou fazer negócios no Ministério da Saúde e em outros órgãos públicos. Diálogos atribuídos à Polícia Federal, datados de 22 de março de 2024 e divulgados nesta semana, mostram os dois tratando de negócios em conjunto. Há ainda outros dois inquéritos sobre atuação suposta em órgãos como a Dataprev.
Na mesma entrevista, o presidente disse que anunciará na quarta-feira, 26 de agosto, o fim da cobrança sobre compras internacionais de baixo valor, depois de reunião com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. A medida existe desde maio, na Medida Provisória 1.357/2026, que permite zerar o Imposto de Importação sobre remessas de até 50 dólares em plataformas estrangeiras. Para valer em definitivo, precisa de comissão mista instalada e de aprovação na Câmara dos Deputados e no Senado. O prazo é curto: a medida perde validade em 8 de setembro, e nesse caso volta a valer o regime anterior de tributação.
Veículos de direita enfatizaram a contradição de origem. A tributação sobre compras internacionais de baixo valor entrou em vigor durante o terceiro mandato do próprio presidente e provocou desgaste entre consumidores, e agora, em ano eleitoral, o Palácio do Planalto tenta retirá-la. Essa cobertura descreveu a desoneração como medida de apelo popular na disputa pela reeleição e ligou o destravamento da pauta à reaproximação entre o presidente e Davi Alcolumbre, ocorrida em agosto, apontando ainda a tramitação paralela do fim da escala de trabalho 6x1 na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, com relatoria do senador Omar Aziz.
Nenhum veículo de esquerda integrou o conjunto de fontes reunido para esta story, de modo que o contraponto desse campo não aparece na cobertura disponível. A convergência entre as fontes existentes é limitada, mas real: as duas descrevem a mesma entrevista, reconhecem que o presidente vinculou a apuração sobre o filho ao funcionamento normal das instituições e registram que a desoneração das compras internacionais depende do Congresso Nacional, não apenas de um anúncio do Executivo. A divergência está no eixo escolhido. Uma cobertura organizou o material em torno das declarações institucionais e do teor dos inquéritos; a outra organizou em torno do cálculo eleitoral e da reversão de uma política tributária criada pelo próprio governo.
O que ainda não se sabe é considerável. Não há manifestação pública da defesa do filho do presidente nem da empresária citada sobre os diálogos atribuídos à Polícia Federal, e não se conhece o estágio processual dos três inquéritos no Supremo Tribunal Federal. Sobre a medida tributária, não há confirmação de que a comissão mista será de fato instalada a tempo, não há estimativa divulgada de impacto sobre a arrecadação federal e não se sabe qual regra passa a valer se o prazo de 8 de setembro terminar sem votação.