A dois meses da eleição presidencial, duas pesquisas divulgadas na quarta-feira, 5 de agosto de 2026, colocaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à frente do senador Flávio Bolsonaro em todos os cenários testados, ao mesmo tempo em que registraram um governo dividido ao meio na avaliação popular. No levantamento Meio/Ideia, o presidente aparece com 43% das intenções de voto no primeiro turno estimulado, contra 35% do senador. Em um eventual segundo turno entre os dois, o placar é de 48,5% a 43%. Na mesma rodada, 49% desaprovam a maneira como ele conduz o governo e 48,5% aprovam, diferença de meio ponto dentro de uma margem de erro de 2,5 pontos percentuais.
O segundo levantamento, do instituto Genial/Quaest, foi a campo no mesmo período e chegou a um retrato próximo, ainda que com números menores: 48% de aprovação contra 47% de desaprovação, e vantagem de 44% a 39% no segundo turno. Ambas as pesquisas ouviram eleitores entre 31 de julho e 3 de agosto e estão registradas no Tribunal Superior Eleitoral. A primeira entrevistou 1.500 pessoas por telefone; a segunda, 2.004 pessoas presencialmente.
Há um conjunto de fatos que atravessa toda a cobertura, independentemente do enquadramento. Os dois primeiros colocados concentram cerca de 78% das intenções de voto no cenário estimulado, enquanto os nomes da chamada terceira via somam pouco mais de 13%. Os mesmos dois lideram a rejeição, em patamares praticamente idênticos: 48% dizem que não votariam no senador de jeito nenhum e 47,4% dizem o mesmo sobre o presidente. Dois terços do eleitorado afirmam já ter decidido o voto, mas 27,7% não citam nenhum nome quando a pergunta é feita sem lista de candidatos. A leitura convergente é a de uma disputa cristalizada e polarizada, com teto para os dois lados.
A divergência aparece na escolha do que é notícia dentro do mesmo conjunto de números. Veículos de esquerda destacaram que o presidente vive o melhor momento da série histórica do instituto, atingiu seu maior desempenho no voto espontâneo e venceria qualquer adversário testado, sustentado por vantagens amplas no Nordeste, entre a população preta, entre beneficiários de programa de transferência de renda e entre famílias de renda mais baixa. Essa cobertura também ressaltou a melhora na percepção sobre o mercado de trabalho e o aumento do otimismo com a economia.
Veículos de direita enfatizaram o outro lado da mesma tabela: a desaprovação continua numericamente maior que a aprovação, metade do eleitorado diz que o presidente não merece um quarto mandato, e o adversário interrompeu uma sequência de recuos, crescendo de forma constante no voto espontâneo desde maio. Nessa leitura, ganham peso a percepção de alta no preço dos alimentos, a perda de poder de compra relatada por quase 70% dos entrevistados e o combate à corrupção como prioridade apontada pelo eleitorado. Uma dessas peças acrescentou a ressalva de que pesquisas divulgadas em 2022 apresentaram discrepâncias relevantes em relação ao resultado das urnas.
A cobertura de centro concentrou-se na aritmética e na metodologia: reproduziu as perguntas feitas aos entrevistados, publicou amostras, margens de erro, protocolos de registro no TSE e, em alguns casos, o custo e o contratante do estudo. Foi também nessa faixa que apareceu o tratamento mais consistente da margem de erro, com as oscilações de aprovação descritas como empate técnico, e o registro de que a maior parte dos votos do senador no segundo turno vem de quem desaprova a gestão atual. Um dos textos acrescentou a ressalva temporal mais relevante do conjunto: o campo foi realizado antes de o filho mais velho do presidente e dois auxiliares se tornarem alvo de investigação da Polícia Federal.
O que ainda não se sabe é justamente o efeito dessa janela. Nenhum dos levantamentos capta a repercussão das investigações que vieram a público depois do fim das entrevistas, nem os efeitos do início oficial da campanha, previsto para as semanas seguintes. Também não há explicação pública para a diferença entre os dois institutos no tamanho da vantagem no segundo turno, de cinco pontos e meio em um e de cinco pontos no outro, com bases amostrais e métodos de coleta distintos. Nenhuma das coberturas ouviu as campanhas dos candidatos sobre os números, e não há dado sobre como o eleitorado indeciso, que ainda representa mais de um quarto do total no voto espontâneo, deve se distribuir até outubro.