O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, cumprem nesta segunda-feira, 17 de agosto, uma agenda conjunta no Amapá. É o primeiro encontro público dos dois desde a reaproximação costurada no início do mês, depois de meses de relação tensionada. O roteiro prevê a saída de Macapá em voo marcado para as 10h30 rumo a Oiapoque, onde os dois devem conhecer um navio-sonda da Petrobras mobilizado na Margem Equatorial.
O desgaste entre o Palácio do Planalto e o Senado começou com a rejeição, pela Casa, da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, a uma vaga no Supremo Tribunal Federal. O diálogo foi retomado em 4 de agosto, em conversa mediada por ministros da própria Corte. Vieram então uma reunião no Palácio da Alvorada, em 12 de agosto, com a presença do ministro de Relações Institucionais, José Guimarães, e da líder do governo no Senado, Teresa Leitão, e um terceiro encontro dois dias depois, dessa vez a sós. Como resultado, Alcolumbre destravou pautas de interesse do Executivo que estavam paradas, entre elas o fim da escala 6x1, a PEC da Segurança e a taxa das blusinhas, nenhuma delas ainda com data de votação marcada.
Há convergência entre as coberturas sobre o que está em jogo na viagem. O Amapá é o estado natal de Alcolumbre e o palco da disputa pela reeleição do governador Clécio Luís, aliado do senador. O Planalto espera que Alcolumbre discurse e faça um aceno público em favor de Clécio e, por extensão, da candidatura do presidente a um quarto mandato, lançada oficialmente na véspera. O movimento se insere numa estratégia mais ampla de atrair dirigentes de partidos que se declararam neutros na disputa deste ano. Também é consenso o pano de fundo econômico: a Petrobras informou em 14 de agosto a presença de hidrocarbonetos em um poço a 175 quilômetros da costa do Amapá, e no domingo, 16, a presidente da estatal, Magda Chambriard, confirmou tratar-se de petróleo, classificando a área como nova fronteira para o país.
As coberturas divergem no recorte. Veículos de esquerda concentraram o texto na expectativa política do Planalto e na estratégia de arregimentar apoios entre partidos neutros, apresentando a descoberta de petróleo como avanço relevante para o Brasil, com potencial de levar o país da sétima à quinta posição entre os produtores mundiais. A cobertura de centro deu mais peso à cronologia da reaproximação, nomeou os participantes de cada reunião, listou as pautas negociadas e registrou a ressalva técnica feita pela própria presidente da Petrobras, de que ainda são necessários poços de delimitação antes de se falar em descoberta comercial. Veículos de direita não haviam publicado material sobre a agenda até o fechamento desta reportagem, de modo que nenhuma leitura desse campo está incorporada ao texto.
Ainda não se sabe se Alcolumbre fará de fato a declaração de apoio esperada pelo governo, nem em que termos. Também não há definição sobre datas de votação para o fim da escala 6x1, para a PEC da Segurança e para a taxa das blusinhas, nem informação pública sobre o que o presidente do Senado obteve em contrapartida ao destravamento da pauta. No campo econômico, permanecem em aberto o volume real de petróleo do poço, o prazo de perfuração dos poços de delimitação e a confirmação de viabilidade comercial da descoberta.