Luiz Inácio Lula da Silva abriu no domingo, 16 de agosto de 2026, a campanha à reeleição no estádio Primeiro de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. O ato coincidiu com o início oficial do período de campanha e da veiculação da propaganda eleitoral. O palco foi instalado no meio do gramado, com o público espalhado pelo campo, para reproduzir a configuração das assembleias sindicais do fim dos anos 1970. É a sétima disputa presidencial do petista e, segundo o material reunido, provavelmente a última.
A escolha do lugar concentra o sentido do ato. Foi nesse mesmo estádio que Lula, então diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, discursou para dezenas de milhares de trabalhadores durante a Grande Greve do ABC, em 1979, quando a entidade estava sob intervenção do governo do general João Batista Figueiredo. O Partido dos Trabalhadores, fundado há 47 anos, organizou caravanas que saíram de outros estados, gravou cenas para a propaganda eleitoral e lançou um jingle durante a concentração. No mesmo domingo, aliados de Flávio Bolsonaro organizaram comício na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, contraste que as duas coberturas leem como retrato da polarização da eleição.
A cobertura de centro tratou o ato como episódio de uma história mais longa e reconstruiu a formação do bairro e do estádio. Relatou que a Vila Euclides surgiu na década de 1920, quando São Bernardo do Campo ainda era subúrbio sem perfil industrial, e que a chegada das montadoras a partir dos anos 1950 puxou uma migração que fez a cidade saltar de 81,2 mil habitantes em 1960 para 425,6 mil em 1980. Ouviu a urbanista Silvia Helena Passarelli, professora da Universidade Federal do ABC, sobre o recrutamento de trabalhadores no Nordeste e em Minas Gerais e a explosão de favelas na região, e um metalúrgico aposentado que participou das assembleias de 1976. Registrou ainda que as arquibancadas comportam 12,5 mil pessoas e que a expectativa divulgada antes do ato era de ao menos 20 mil participantes, além de apresentar o quadro eleitoral: 46% para Lula e 42% para Flávio Bolsonaro na simulação de segundo turno de um agregador de pesquisas. O ex-ministro José Dirceu, candidato a deputado federal por São Paulo e um dos fundadores do partido, afirmou que o objetivo do ato é recontar a história da legenda para as novas gerações; ele não deve comparecer por estar em tratamento de um linfoma.
Veículos de esquerda descreveram o mesmo domingo pela ótica da rua. O relato é de filas que se prolongavam pelas ruas, caravanas chegando ao longo da manhã e público que ficou do lado de fora acompanhando os discursos pelo som. Tonhão, liderança da luta por moradia, estimou 40 mil participantes vindos de várias regiões de São Paulo e de outros estados. Militantes ouvidos vieram de Santos, de Praia Grande e da Zona Leste da capital, e enquadraram a candidatura como defesa da classe trabalhadora e barreira contra o que chamaram de neoliberalismo e extrema direita. Jovens do PCdoB e da União da Juventude Socialista descreveram a campanha como disputa pela participação política de uma nova geração. O texto insiste na dimensão festiva do ato, com baterias, bonecos, bandeirões e vendedores nas esquinas.
A divergência de cobertura está menos no fato e mais no que cada lado mede. A leitura de esquerda toma o tamanho e o clima da mobilização como prova de vitalidade da campanha, sem citar pesquisas nem rejeição. A cobertura de centro coloca o mesmo ato dentro de uma disputa apertada, com margem de quatro pontos no segundo turno, e registra o debate sobre a alta rejeição ao presidente. Veículos de direita não cobriram o lançamento no material reunido até o momento, de modo que a crítica ao formato do comício, à mobilização por caravanas partidárias e à estimativa de público não aparece com fonte própria nesta reunião de fontes.
O que ainda não se sabe é relevante. Não há estimativa oficial de público aferida por organização independente, pela prefeitura ou pela polícia: o número de 40 mil parte de uma liderança de movimento social e convive com a expectativa prévia de 20 mil e com arquibancadas para 12,5 mil. O teor do discurso presidencial e o conteúdo do programa de governo não são detalhados. Também não há informação sobre o público e o desenrolar do ato bolsonarista em Copacabana, nem sobre o efeito de qualquer um dos dois comícios nas intenções de voto para as eleições de outubro.