A investigação sobre o Banco Master entrou em nova fase depois que as negociações de delação premiada do ex-CEO da instituição, Daniel Vorcaro, e do ex-presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa, foram consideradas descartadas. No entendimento da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal, nenhum dos dois esteve de fato disposto a apresentar informações novas e abrangentes. Sem os acordos, a apuração passa a depender de documentos e dados financeiros ainda não analisados, e a PF terá de reconstruir sozinha uma rede que alcança agentes financeiros, servidores públicos, políticos e influenciadores.
Na mesma investigação, a Operação Compliance Zero, a Polícia Federal intimou o senador Jaques Wagner, do PT da Bahia, a depor. A oitiva está marcada para 7 de agosto. Nos documentos da apuração, o senador é apontado como suposto beneficiário central das vantagens econômicas investigadas, figurando como agente público em favor de quem teriam sido estruturados pagamentos, benefícios e aquisições patrimoniais. Segundo a investigação, ele é próximo do banqueiro Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro e proprietário do Banco Pleno, instituição também liquidada pelo Banco Central.
Os dois relatos convergem no desenho geral do caso. Cerca de vinte profissionais, entre delegados, peritos e analistas, trabalham na apuração, hoje dividida em cinco núcleos: servidores do Banco Central suspeitos de facilitar operações irregulares do Master; a tentativa de salvamento do banco por meio do Banco de Brasília; o uso do Crescesta em operações destinadas, segundo a suspeita, a inflar carteiras de crédito; a compra de precatórios que teriam sido expedidos antes do encerramento dos respectivos processos judiciais; e a rede de relações construída por Vorcaro, incluindo pagamentos a autoridades e a influenciadores. O relator do caso no Supremo Tribunal Federal, ministro André Mendonça, tem dito a interlocutores que não participa das negociações de colaboração em curso e que evita determinar diligências por iniciativa própria. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, informou que a corporação enviará em breve um relatório preliminar ao relator.
A divergência está na ênfase. Veículos de esquerda destacaram o flanco institucional: há menções a integrantes do próprio Supremo sem que exista, até agora, informação pública de linha autônoma de investigação sobre elas, e há o risco de que vazamentos ou excessos abram caminho para pedidos de anulação, em roteiro semelhante ao que sepultou a Lava Jato. Nessa leitura, procuradores que acompanham o caso rebatem a comparação e afirmam que as prisões foram fundamentadas, os vazamentos foram isolados e a Procuradoria não interferiu no trabalho policial. Já a cobertura de centro tratou do avanço concreto da apuração sobre o campo político, informando de forma direta a intimação do senador e reproduzindo o trecho em que a própria Polícia Federal o descreve como suposto beneficiário. Até o momento, veículos de direita não publicaram cobertura própria desta etapa do caso, de modo que o contraponto habitual, centrado na responsabilização individual de agentes públicos e no custo do uso de um banco estatal para socorrer instituição privada, não aparece no material disponível.
O que ainda não se sabe é o principal. Não há informação pública sobre o conteúdo do relatório preliminar que a Polícia Federal enviará ao relator nem sobre quais providências serão pedidas. Também não se sabe se as referências a autoridades foram examinadas de maneira adequada, ponto que a Procuradoria poderá contestar com pedido de diligências complementares. Não há, no material disponível, manifestação das defesas dos investigados sobre o fim das negociações, nem resposta do senador intimado ou de seus advogados. Permanece em aberto, ainda, se a oitiva de 7 de agosto será mantida na data.