O governo federal lançou nesta terça-feira o Plano Safra 2026/2027 para a agricultura empresarial com R$ 525,1 bilhões em financiamentos, o maior volume já destinado ao programa. O anúncio foi feito no Palácio do Planalto pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, pelo ministro da Agricultura, André de Paula, e pelo ministro da Fazenda em exercício, Dario Durigan. O presidente Lula não participou porque cumpria agenda oficial no Paraguai.
Apesar do valor recorde, o pacote ficou R$ 127 bilhões abaixo dos R$ 652 bilhões defendidos por entidades do agronegócio e por parte dos próprios ministérios envolvidos na elaboração da proposta. Essa diferença resume o principal impasse do ano. De um lado, representantes do setor pressionavam por mais recursos para compensar o crédito mais caro provocado pela taxa Selic elevada. De outro, a equipe econômica buscava limitar o custo fiscal da equalização de juros, o mecanismo pelo qual o Tesouro subsidia parte das operações contratadas pelos produtores.
Há pontos em que toda a cobertura converge. O programa ampliou em R$ 9 bilhões os recursos em relação ao ciclo anterior, um crescimento nominal de 1,7%. O governo reduziu as taxas máximas de várias linhas: o Pronamp, voltado aos médios produtores, terá R$ 72,6 bilhões com juros de até 9% ao ano, e as demais linhas ficam entre 8% e 12,5%. Dos R$ 525,1 bilhões, R$ 384,9 bilhões vão para custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimentos como máquinas, armazenagem e irrigação. Ainda foi criado um grupo de trabalho para acompanhar os efeitos do El Niño sobre a próxima safra.
É na leitura política que os enquadramentos se separam. Veículos de direita enfatizaram a frustração do agronegócio: a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, cooperativas e a Frente Parlamentar da Agropecuária argumentaram que a alta dos juros exigia ampliação dos recursos, sob o risco de repassar o custo integral aos produtores. Nesse enquadramento, o valor anunciado foi insuficiente diante da demanda real do campo. A cobertura de centro relatou os pleitos setoriais de forma mais descritiva, ouvindo, por exemplo, a Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul, que pediu juros abaixo de 10%, renegociação de dívidas e reforço do seguro rural, alertando que taxas de dois dígitos podem inviabilizar a produção do cereal. Já uma leitura de esquerda tende a destacar que, mesmo com a Selic elevada, o governo conseguiu baixar juros na maioria das linhas e conteve a pressão por mais gasto público, além de condicionar descontos à regularização ambiental por meio do Cadastro Ambiental Rural.
Ao longo da apresentação, o ministro Dario Durigan afirmou que o Executivo preservou o crédito subsidiado mesmo em ambiente de juros altos, e que conseguiu reduzir as taxas em praticamente todas as linhas. Entidades do setor, porém, sustentam que a existência de recursos não garante acesso, já que os bancos ainda precisam captar fontes como as Letras de Crédito do Agronegócio e a poupança rural para liberar o crédito.
O que ainda não se sabe é como o volume anunciado se traduzirá em contratações efetivas ao longo do ciclo, especialmente para produtores endividados. Também segue em aberto o desenho final da agricultura familiar, cujo pacote adicional de cerca de R$ 83 bilhões deve elevar o crédito total do setor a aproximadamente R$ 608 bilhões, e o andamento de propostas como o PL 5.122/2023, citado pelo setor arrozeiro como essencial para financiar produtores atingidos por eventos climáticos.