Dirigentes do PSD abriram conversas para convencer Romeu Zema, do Novo, a retirar a candidatura à Presidência da República e apoiar Ronaldo Caiado na disputa pelo Palácio do Planalto. Pelo desenho em discussão, o ex-governador de Minas Gerais deixaria a corrida presidencial e passaria a concorrer a uma vaga no Senado por Minas, dentro de um entendimento mais amplo que envolveria o seu grupo político no estado e aliados do ex-governador de Goiás. O relato é atribuído a integrantes dos dois partidos e da campanha de Caiado, todos falando sob reserva.
O pano de fundo é o desempenho eleitoral. Na pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto, Zema apareceu em quinto lugar na disputa presidencial, com 3% das intenções de voto. Sua candidatura não tem direito a propaganda eleitoral no rádio e na televisão, o que reduz a exposição da campanha. Dois dias depois, em 23 de agosto, ele decidiu não comparecer ao primeiro debate presidencial, ao qual também faltaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. Compareceram Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury. O debate era uma das poucas janelas de aparição televisiva disponíveis a Zema, e o próprio convite havia sido uma concessão dos organizadores, já que a legislação não obriga a inclusão de candidatos com o porte de bancada do Novo.
Há convergência entre todas as coberturas sobre os fatos verificáveis: o percentual na pesquisa, a ausência no debate, a existência de conversas relatadas por integrantes do PSD, o prazo de 13 de setembro para que os partidos alterem o cargo em que cada candidato disputa e as negativas oficiais. A cúpula do PSD nega a articulação. Um integrante da campanha de Caiado nega que exista negociação. A direção nacional do Novo rejeita a retirada da candidatura, e um integrante da campanha do próprio Zema afirmou que a chance de desistência é zero.
As ênfases, porém, se separam. Veículos de direita destacaram a dimensão da articulação partidária e o cálculo eleitoral por trás dela, detalhando que uma candidatura ao Senado teria mais chance de vitória e poderia fortalecer simultaneamente Caiado e Mateus Simões, candidato ao governo de Minas Gerais e ex-vice de Zema, hoje em quarto lugar com 4% num quadro liderado pelo senador Cleitinho. A cobertura de centro relatou o mesmo movimento com peso maior nas negativas: uma parte tratou a permanência de Zema na disputa como posição firme do partido e registrou apenas especulações de que ele estaria prestes a apoiar Flávio Bolsonaro, sem mencionar a proposta ligada a Caiado; outra parte descreveu a oferta do PSD e a resistência interna da direção nacional do Novo como o eixo do episódio. Entre veículos de esquerda, o caso teve pouca repercussão até o momento, e a leitura que tende a prevalecer nesse campo é a de que a negociação trata mandatos como moeda de troca entre cúpulas partidárias, com a ausência coletiva no debate reduzindo o espaço de prestação de contas ao eleitor.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há detalhe público sobre as contrapartidas que estariam sendo oferecidas ao grupo político mineiro, nem sobre quem conduz as conversas de cada lado. Não está esclarecido se Zema efetivamente avalia a proposta, como sugerem alguns relatos, ou se a rejeita, como afirmam integrantes de sua campanha. Também não se sabe se a direção nacional do Novo manterá a recusa até o prazo legal de 13 de setembro, nem se o PSD apresentará uma oferta formal antes disso. Enquanto os dois partidos negam publicamente e fontes internas descrevem negociação em curso, a única data com efeito prático é a do calendário eleitoral.