O deputado federal Ricardo Salles, do Novo, escolheu Mogi das Cruzes, no Alto Tietê paulista, para lançar oficialmente a candidatura ao Senado por São Paulo. O plano anunciado para a primeira fase da campanha é uma caravana batizada de Fora Lula, com um ônibus adesivado pedindo o fim do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A organização do ato projeta a presença de mais de duas mil pessoas, entre lideranças políticas, apoiadores e integrantes de movimentos identificados com a direita paulista.
A escolha da cidade carrega significado político. O Alto Tietê é uma região historicamente vinculada ao deputado Valdemar Costa Neto, presidente nacional do Partido Liberal. Salles apresenta a própria candidatura como alternativa ao que chama de centrão fisiológico, grupo que, na avaliação dele, se aproxima da direita nas urnas mas prioriza cargos e emendas dentro do governo do Partido dos Trabalhadores. Ex-ministro do Meio Ambiente, o deputado promete levar ao Senado a redução do tamanho e do custo da máquina pública, além de segurança pública, liberdade econômica, desburocratização, fortalecimento do agronegócio, infraestrutura, saneamento e defesa da propriedade privada. Em suas declarações, afirma que São Paulo é o estado que mais produz, empreende e arrecada, e que o paulista não pode seguir pagando uma conta crescente por uma máquina pública que não entrega na mesma proporção.
O mesmo movimento de campanha de rua apareceu em outra frente da direita no mesmo dia. Em Juiz de Fora, em Minas Gerais, o deputado federal Nikolas Ferreira, do Partido Liberal, manteve a agenda de caminhada e discurso com megafone mesmo depois de o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro cancelar a visita à cidade por causa do mau tempo. Diante de simpatizantes reunidos na calçada, Nikolas puxou coros contra Lula e contra o Partido dos Trabalhadores, citou a alta da carga tributária e o preço de alimentos como arroz, feijão e carne, e orientou militantes a buscar o voto de indecisos. Também elogiou o presidente argentino Javier Milei, pelo corte de gastos públicos, e o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, pela política prisional e de segurança, além de criticar a condução da política externa brasileira.
Veículos de direita enfatizaram o enquadramento do próprio candidato paulista: a campanha como insurgência contra o sistema político, a defesa do contribuinte que sustenta o gasto público e a promessa de transformar São Paulo em polo de oposição ao governo federal no Congresso. Nessa cobertura, as falas de Salles aparecem em blocos de citação direta, sem contraditório de adversários ou do governo, e o vocabulário da narração acompanha o do entrevistado. A cobertura de centro descreveu o repertório antipetista de forma mais seca, atribuindo cada afirmação a quem a fez, registrando o cancelamento do ato do candidato à Presidência e listando as referências internacionais do discurso sem endossá-las nem contestá-las. Até o fechamento desta análise, veículos de esquerda não haviam publicado cobertura sobre nenhum dos dois atos, o que deixa sem resposta pública tanto as críticas dirigidas ao governo federal quanto o histórico de Salles à frente do Ministério do Meio Ambiente.
Vários pontos seguem em aberto. Não há confirmação do público efetivamente presente no lançamento em Mogi das Cruzes nem roteiro divulgado da caravana pelo interior paulista. Também não estão detalhados o custo e o financiamento do ônibus adesivado, nem apoios formais de outros partidos à candidatura ao Senado. Nenhuma das coberturas apurou a resposta do governo federal ou do Partido dos Trabalhadores às críticas feitas nos dois atos, e não se sabe se a visita cancelada de Flávio Bolsonaro a Juiz de Fora será remarcada.