O calendário eleitoral de 2026 entrou na fase em que os candidatos precisam abrir as contas. Ao registrar candidatura, todo postulante entrega à Justiça Eleitoral uma declaração de bens que fica pública na plataforma do Tribunal Superior Eleitoral, e as duas declarações que ganharam atenção nesta semana apontam para direções opostas. O deputado federal Ricardo Salles, do Novo, oficializou a disputa por uma vaga no Senado por São Paulo e informou patrimônio de R$ 9,05 milhões. O advogado Ciro Gomes, agora no PSDB e candidato ao governo do Ceará, declarou R$ 1.756.648,94, menos da metade do que apresentou quatro anos atrás.
No caso do ex-ministro do Meio Ambiente, a comparação é com os R$ 3,97 milhões declarados em 2022, quando foi eleito deputado federal por outro partido. A cobertura de centro corrigiu esse valor pela inflação medida pelo IGP-M, chegou a cerca de R$ 4,08 milhões em valores de hoje e concluiu que houve crescimento real de 121,8% em quatro anos. Veículos de direita trabalharam com os valores nominais e falaram em alta de aproximadamente 127%. A diferença entre os dois percentuais está no método de cálculo, não nos números declarados: ambos partem da mesma base oficial.
A composição do patrimônio é o ponto em que todas as versões convergem. O candidato ao Senado manteve a casa em São Paulo, avaliada em R$ 3,15 milhões na declaração anterior, e acrescentou dois imóveis rurais, um no interior paulista, de R$ 2,9 milhões, e outro em Portugal, de R$ 3 milhões. O candidato cearense listou dois apartamentos, de R$ 889,4 mil e R$ 381,2 mil, dois veículos, um plano de previdência do tipo VGBL, uma participação de R$ 50 mil em sociedade individual de advocacia e a fração de um imóvel residencial. Em 2022, sua declaração de R$ 3.039.761,97 incluía uma promessa de venda de empresa que renderia R$ 1 milhão.
As ênfases se separam a partir daí. Veículos de direita deram espaço à explicação do candidato ao Senado, que atribuiu o crescimento à atividade advocatícia e à incorporação do resultado de um investimento imobiliário no exterior, lembraram que a remuneração de deputado federal é de R$ 46,3 mil mensais e que parlamentares não estão impedidos de exercer outras atividades remuneradas, com a restrição de não atuar em ações de direito público. Essa mesma cobertura acrescentou um dado que relativiza o salto: em 2018, quando concorreu pela primeira vez a deputado, ele havia declarado R$ 8,8 milhões, valor superior ao de agora. E situou o registro na disputa pelo eleitorado bolsonarista, com o atrito público entre o deputado e a família do ex-presidente pela composição da chapa ao Senado. A cobertura de centro, sobre um candidato e sobre o outro, ficou concentrada nos números da declaração, sem ouvir os políticos: no caso cearense, uma das notas descreveu a queda com aspas de ironia, afirmando que ele 'perdeu' quase metade das posses, sem apurar a causa da redução. Não houve, até aqui, cobertura de veículos de esquerda sobre o tema neste conjunto de reportagens, o que deixa de fora o enquadramento que costuma cobrar o rastreamento da origem dos bens e a comparação com a renda paga pelo poder público.
Alguns pontos seguem sem resposta. Nenhuma reportagem apresenta documento que confirme a origem dos R$ 4,97 milhões adicionais declarados pelo candidato ao Senado, nem detalha quando e por quanto o imóvel em Portugal foi adquirido. Do lado cearense, não há explicação pública para a redução de 42% no patrimônio, e não se sabe se a promessa de venda de empresa declarada em 2022 chegou a se concretizar. Também não foram informados os endereços dos imóveis ao tribunal regional, e o Tribunal Superior Eleitoral ainda não decidiu sobre o deferimento dos registros, etapa em que as declarações podem ser contestadas.