O vice-presidente Geraldo Alckmin, do PSB, afirmou nesta segunda-feira, 17 de agosto de 2026, que o esforço para gerar superávit nas contas públicas não depende apenas do Poder Executivo. A declaração foi feita em evento do banco Santander. Candidato à reeleição na chapa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Alckmin defendeu a continuidade do ajuste fiscal e apontou decisões do Judiciário e do Legislativo como fatores de impacto direto no resultado das contas do governo federal. Segundo ele, a primeira tarefa foi zerar o déficit e a meta seguinte é chegar a 1% de superávit primário.
Os relatos disponíveis reproduzem o mesmo conjunto de números, atribuídos ao Tesouro Nacional. O governo federal registrou déficit primário de R$ 61 bilhões em 2025 e de R$ 43 bilhões em 2024, e projeta resultado negativo de R$ 52 bilhões para 2026. O déficit primário ocorre quando as despesas superam as receitas, excluído o pagamento dos juros da dívida. A gestão considera que cumpre a meta de déficit zero desde 2024, mas para isso precisou retirar uma série de gastos do arcabouço fiscal, a regra de despesas aprovada em 2023. Em 2024, os R$ 29 bilhões destinados ao socorro aos atingidos pelas enchentes no Rio Grande do Sul ficaram fora do arcabouço, o que permitiu fechar as contas dentro da meta oficial, ainda assim com déficit da ordem de R$ 11 bilhões depois de aplicadas as exceções. O vice-presidente afirmou que o problema da dívida não é só brasileiro, citou Japão e Estados Unidos e disse que o caminho é combater privilégio e desperdício, com a sociedade cobrando dos Três Poderes.
Alckmin também tratou da discussão em curso no Supremo Tribunal Federal sobre as chamadas pautas-bomba, projetos que criam despesa sem indicar de onde virá a receita. Diante do avanço dessas propostas no Congresso Nacional, o ministro Gilmar Mendes sugeriu a edição de uma súmula para que toda proposta legislativa sem previsão fiscal seja automaticamente declarada inconstitucional. Para o vice-presidente, tudo que não tiver previsão fiscal é ilegal e o Judiciário pode ajudar. Ele acrescentou que não existe pauta-bomba contra o governo, e sim contra a população, porque o Estado não fabrica dinheiro e retira recursos da sociedade.
Sobre as novas tarifas aplicadas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, Alckmin repetiu que o governo considera a medida injusta e descabida, já que os norte-americanos têm superávit comercial com o Brasil. Ele citou o início do processo previsto na Lei de Reciprocidade, mas descartou intenção de retaliar, defendeu o livre comércio, o multilateralismo e o papel da Organização Mundial do Comércio, e disse acreditar em acordo entre os dois países. Afirmou ainda que o Brasil não sai da mesa de negociação e que não deve tomar partido na disputa entre Estados Unidos e China.
A cobertura de centro tratou o episódio como assunto de economia e mercado, ancorado na série do Tesouro Nacional e no debate sobre juros, sem qualificar as falas do vice-presidente. Veículos de esquerda publicaram o mesmo relato factual e o inseriram na editoria de economia, com destaque para a passagem em que Alckmin responsabiliza os Três Poderes pelo combate a privilégio e desperdício, ângulo que sustenta a leitura de que o custo do ajuste não deve recair apenas sobre políticas do Executivo. Até o momento, veículos de direita não haviam publicado matéria sobre o mesmo evento; o enquadramento habitual desse campo cobra do próprio Executivo o corte de despesa antes de dividir a responsabilidade com Congresso Nacional e tribunais, e costuma ler as exceções ao arcabouço fiscal como flexibilização da regra.
Pontos centrais seguem em aberto. Nenhuma das matérias informa em que prazo a súmula proposta por Gilmar Mendes seria levada ao plenário do Supremo Tribunal Federal, nem se há maioria formada entre os ministros. Também não há detalhamento de quais receitas ou cortes levariam o resultado primário à meta de 1% citada pelo vice-presidente, nem calendário para a negociação tarifária com os Estados Unidos. Não há, nas duas coberturas, reação do Congresso Nacional à proposta que limitaria projetos sem previsão de receita.