O deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro (PL), afirmou na terça-feira, 18 de agosto, durante encontro com empresários em Brasília, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve a permanência no cargo à bondade dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Na mesma declaração, Gaspar sustentou que há desequilíbrio entre os Poderes e acusou o Judiciário de avançar sobre atribuições do Congresso Nacional, ao dizer que aquilo que o Legislativo aprova é desmanchado no dia seguinte por decisão monocrática de um único ministro. O deputado atribuiu parte da responsabilidade aos próprios parlamentares, que, segundo ele, temem confrontar o tribunal e depois virar alvo de decisões judiciais.
Os fatos que sustentam a controvérsia não são disputados por nenhum lado da cobertura. Lula foi alvo de processos no âmbito da Operação Lava Jato e chegou a ser condenado. Em 2021, o Supremo anulou as condenações por entender que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar aqueles processos e, na mesma ocasião, declarou a parcialidade do então juiz Sergio Moro. As decisões restabeleceram os direitos políticos do petista e permitiram que ele disputasse a eleição de 2022. A divergência começa na interpretação: o que a acusação chama de bondade, o registro judicial descreve como reconhecimento de vício processual, sem julgamento do mérito das acusações.
A fala chega no início da campanha presidencial. A cobertura de centro relatou que Lula e Flávio Bolsonaro, os dois líderes nas pesquisas de intenção de voto, devem faltar ao primeiro debate entre os candidatos à Presidência, marcado para a noite de domingo, 23 de agosto, às 20h. A campanha do presidente diverge do formato do encontro, sobretudo pela presença de concorrentes cujo convite é facultativo: a legislação eleitoral só garante participação a candidatos de partidos, federações ou coligações com ao menos cinco representantes eleitos para o Congresso Nacional. Entre os seis convidados, dois não atingem esse limiar. Na avaliação de petistas ouvidos em reserva, o formato favoreceria adversários que depois recortariam trechos do embate para atacar o presidente nas redes sociais. A campanha do senador vinculou sua presença à do presidente. A emissora organizadora chegou a adiar a data original, mas afirmou não ter recebido comunicação oficial de nenhuma das duas campanhas. Foram registradas 13 candidaturas à Presidência no Tribunal Superior Eleitoral.
Uma coluna de opinião publicada por veículo de centro ampliou o quadro por outro ângulo. Argumenta que o presidente, depois de três mandatos, precisa apresentar uma nova utopia ao eleitor, que bandeiras históricas como a da ética já não lhe servem e que programas consolidados deixaram de mobilizar. Registra ainda o acerto recente do Planalto com os comandos do Senado e da Câmara e sugere que o pacto funcionaria também como blindagem do Supremo diante das ameaças de impeachment de ministros prometidas pela oposição. O mesmo texto aponta que o antecessor terceirizou a administração política ao Centrão e viu crescerem as emendas parlamentares, e que a dificuldade do senador em fechar alianças revela déficit de confiança dentro do próprio campo.
A divergência de cobertura é nítida. Veículos de direita enfatizaram a acusação de que o mandato presidencial é uma concessão do tribunal e o diagnóstico de avanço do Judiciário sobre o Legislativo eleito, dando espaço integral à fala do candidato a vice. A cobertura de centro tratou o episódio como movimento de campanha e concentrou-se nas regras do debate, no cálculo eleitoral das duas campanhas e no fundamento jurídico da anulação de 2021. Veículos de esquerda não haviam registrado a declaração no material reunido para esta análise, e essa ausência é o ponto cego da história: falta o enquadramento que leria a fala como tentativa de deslegitimar o voto de 2022 e o próprio tribunal.
O que ainda não se sabe é se as duas campanhas vão formalizar a desistência do primeiro debate ou apenas deixar as cadeiras vazias, e se o presidente participará de outros encontros antes do primeiro turno. Também não há resposta pública do Supremo Tribunal Federal, do Planalto ou do partido do presidente à acusação feita em Brasília, nem detalhamento sobre quais decisões monocráticas o deputado considera indevidas.