O primeiro dia em que a legislação eleitoral permitiu pedidos explícitos de voto, domingo, 16 de agosto de 2026, foi marcado pela disputa das ruas entre os dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas. O senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal, lançou a candidatura à Presidência da República em cima de um trio elétrico na Avenida Atlântica, na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. No mesmo dia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, abriu a campanha à reeleição no estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo, palco das greves do ABC que marcaram sua trajetória sindical no fim dos anos 1970.
O ato carioca teve como personagem central justamente quem não pôde comparecer. O ex-presidente Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar em Brasília, condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe de Estado, e está proibido por decisão do ministro Alexandre de Moraes de participar de manifestações político-eleitorais até o fim do pleito. Trechos de discursos do pai foram reproduzidos no sistema de som, o público entoou o coro “volta, Bolsonaro” e o próprio candidato admitiu a comparação inevitável: “É difícil comparar o filho do Pelé com o Pelé”. Fernanda Bolsonaro, esposa do senador, escreveu com batom a frase “O Brasil vai vencer” nas costas da camiseta do marido e discursou sobre oportunidades para mulheres, assim como o deputado federal Eduardo Pazuello.
As diferentes coberturas convergem sobre o conteúdo do discurso, que durou cerca de 30 minutos. Flávio Bolsonaro prometeu classificar o Primeiro Comando da Capital, o Comando Vermelho e as milícias como organizações terroristas, defendeu a redução da maioridade penal, afirmou que indicará quatro ministros ao Supremo Tribunal Federal contrários ao aborto e às drogas, e disse que cortará gastos e impostos, entre eles a tributação sobre a folha de pagamento. Em transmissão feita na madrugada, relatou ter recebido mais de 1.800 ameaças de morte e afirmou que a Polícia do Senado conduziu à delegacia, no sábado, uma pessoa que planejaria um atentado em Juiz de Fora, cidade onde a motociata acabou cancelada na segunda-feira por mau tempo. Lula, no ato paulista, prometeu criar o Ministério da Segurança Pública caso o Congresso aprove a PEC da Segurança.
É no enquadramento que a cobertura se separa. Veículos de direita deram destaque às homenagens familiares, à presença de bandeiras dos Estados Unidos entre apoiadores e à comparação de público entre os dois comícios: a estimativa do Monitor do Debate Político da Universidade de São Paulo com o Cebrap apontou entre 7.800 e 9.900 pessoas em Copacabana, enquanto no ato do presidente a campanha não autorizou o sobrevoo de drones que permitiria a contagem, e o secretário de comunicação do Partido dos Trabalhadores falou em mais de 40 mil presentes. Esses veículos também sublinharam a rodada do instituto Nexus contratada pelo banco BTG, segundo a qual 50% do eleitorado não votaria no senador de jeito nenhum, contra 48% de rejeição ao presidente, com Lula à frente por 41% a 36% no primeiro turno e 47% a 44% num eventual segundo turno, tudo dentro da margem de erro de dois pontos.
A cobertura de centro deu mais espaço ao contexto judicial da ausência de Jair Bolsonaro, registrou que o candidato citou pesquisas internas favoráveis sem apresentar dados ou institutos, e trouxe o levantamento Quaest que mostra desvantagem do senador entre mulheres, com 28% ante 39% do presidente. Também de centro veio o relato de bastidores segundo o qual integrantes da campanha temem que o voto da direita se disperse entre o senador, o governador Ronaldo Caiado e o governador Romeu Zema, e avaliam intensificar motociatas e a associação da imagem do candidato à do pai. Nenhum veículo de esquerda cobriu o episódio no conjunto analisado, e o ângulo mais crítico ao bolsonarismo, que costuma sublinhar a condenação por tentativa de golpe e o alinhamento externo do grupo, aparece apenas de forma indireta.
Permanecem em aberto o número de participantes do comício do presidente, já que a contagem independente não foi autorizada, e o efeito eleitoral do calendário, uma vez que a propaganda em rádio e televisão só começa em 28 de agosto e não há na cobertura medição posterior ao primeiro dia de campanha.