O senador Flávio Bolsonaro, do PL, chegou ao fim do prazo das convenções partidárias sem nenhuma aliança nacional e deve começar a campanha presidencial com menos tempo de propaganda gratuita no rádio e na televisão do que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Projeções feitas a partir das regras do Tribunal Superior Eleitoral apontam cerca de 5 minutos e 32 segundos por bloco para o petista, contra aproximadamente 4 minutos e 20 segundos para o senador. A diferença de 1 minuto e 12 segundos equivale a uma desvantagem de cerca de 21% para o candidato da oposição.
A virada de chave aconteceu na terça-feira, 4 de agosto, quando a convenção nacional do Republicanos, realizada a portas fechadas em Brasília, decidiu manter neutralidade na disputa presidencial. Dos 27 diretórios estaduais consultados, 17 defenderam a neutralidade, nove o apoio ao candidato do PL e um o apoio ao presidente. Horas depois, o Podemos também anunciou que ficaria fora da chapa, repetindo a decisão já tomada pela federação União Progressista, formada por PP e União Brasil. Com as portas do centrão fechadas, o PL partiu para uma chapa pura e anunciou o deputado Alfredo Gaspar como candidato a vice.
Os números têm base em uma regra objetiva. Noventa por cento do horário eleitoral é distribuído proporcionalmente ao tamanho das bancadas eleitas para a Câmara dos Deputados em 2022, e os 10% restantes são divididos igualmente entre as candidaturas que superaram a cláusula de desempenho. O presidente reúne PT, PCdoB e PV, na federação Brasil da Esperança, mais PSB, PDT e a federação PSOL-Rede. O senador conta apenas com o PL, que elegeu 98 deputados federais. Além dos dois, somente Ronaldo Caiado, com cerca de 2 minutos e 2 segundos, e Augusto Cury, com aproximadamente 36 segundos, terão espaço na propaganda. Romeu Zema e Renan Santos ficam de fora porque seus partidos não atingiram a cláusula de barreira.
Veículos de esquerda destacaram que a sequência de recusas consolidou o isolamento do candidato da direita, tratando o resultado como derrota política do bolsonarismo diante de uma frente ampla e como êxito da articulação das forças governistas para conter a expansão das alianças da oposição. A cobertura de centro concentrou-se nos cálculos e na mecânica legal, ouvindo especialista em direito eleitoral que relativiza o isolamento ao lembrar que o tamanho da bancada do PL, mesmo sem coligação, ainda garante ao senador uma fatia expressiva do horário, superior a quatro minutos. Veículos de direita enfatizaram o cálculo pragmático dos partidos, que temiam prejudicar suas bancadas proporcionais ao se vincular a um dos polos, e deram espaço à justificativa de que os problemas do país seriam maiores do que a disputa ideológica.
A divergência mais nítida está no cenário que não se realizou. Antes da decisão da convenção nacional, uma coluna de bastidor sustentou, com base em avaliações de aliados do senador, que a entrada do partido na chapa faria o candidato do PL superar o presidente no tempo de televisão. Cálculos publicados depois confirmam que a hipótese era plausível: com o apoio do Republicanos e da federação União Progressista, o senador chegaria a 6 minutos e 51 segundos por bloco, e o presidente cairia para 3 minutos e 43 segundos. Apenas com o Republicanos, a vantagem seria mais estreita, de 5 minutos e 17 segundos contra 4 minutos e 51 segundos. Também ficou pelo caminho a costura da vice, com os nomes de Tereza Cristina, de Damares Alves e da economista Daniella Marques ventilados sem que nenhum se viabilizasse.
Ainda não se sabe qual será a distribuição oficial, porque o Tribunal Superior Eleitoral não divulgou a tabela definitiva do tempo de 2026 e todos os números em circulação são projeções. Também está em aberto o efeito prático dessa diferença sobre a intenção de voto, num ciclo em que as redes sociais dividem espaço com o rádio e a televisão. O prazo de registro das candidaturas vai até 15 de agosto, e apoios informais ou arranjos estaduais ainda podem alterar o desenho final das chapas antes do início da propaganda, marcado para 28 de agosto.