O candidato do Partido Social Democrático (PSD) à Presidência da República, Ronaldo Caiado, afirmou no sábado, 22 de agosto, em Campinas, no interior de São Paulo, ser favorável ao fim da escala 6x1. Questionado por jornalistas se apoiava ou não a medida, o ex-governador de Goiás respondeu apenas: "Sim, sou a favor". A declaração encerrou três dias de esquiva sobre a Proposta de Emenda à Constituição que reduz a jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais e extingue a escala de seis dias de trabalho por um de folga.
A virada é nítida porque, na quarta-feira, 19 de agosto, depois de participar do 11º Fórum CNT de Debates, promovido pela Confederação Nacional do Transporte, em Brasília, Caiado havia classificado a proposta como "eleitoreira", "populista" e "de voto". Na ocasião, disse que não caberia a ele opinar: "Essa é uma pauta que não é minha. Ela será minha no momento em que eu assumir o poder". Na quinta-feira, 20, em sabatina televisiva, deu o primeiro sinal de adesão ao dizer que era favorável à redução da jornada. Na sexta-feira, 21, em visita ao Mercado Municipal de São Paulo, ao lado do vice de sua chapa, Gilberto Kassab, sustentou que "não tem dificuldade nenhuma de aceitar" a mudança, mas manteve a crítica ao modo como ela foi apresentada e afirmou que o PSD sempre defendeu a redução de jornada.
O pano de fundo é o destravamento da PEC no Senado. O texto estava parado desde maio, quando chegou à Casa, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, anunciou que liberaria a tramitação e encaminharia a proposta à Comissão de Constituição e Justiça, a CCJ, depois de uma conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 12 de agosto. Mesmo com o envio à comissão, a avaliação predominante no Senado é que a discussão só avança depois das eleições: o Congresso tem apenas mais uma semana de esforço concentrado no início de setembro.
Toda a cobertura converge em três pontos. Primeiro, que houve mudança de posição em intervalo curto, com as duas declarações registradas com data e local. Segundo, que Caiado manteve, mesmo depois de aderir, a crítica ao caráter eleitoral da proposta e a defesa de que empregadores e trabalhadores fossem ouvidos antes de qualquer emenda à Constituição. Terceiro, que a tramitação foi liberada em meio à reaproximação entre o comando do Senado e o governo federal.
A cobertura de centro, majoritária no conjunto analisado, tratou o episódio como cronologia: registrou a esquiva, a adesão e a contradição entre as falas, explicou o conteúdo da PEC e reproduziu a nota do presidente do Senado, sem atribuir motivação ao candidato. Veículos de direita deram ênfase ao contraste entre o discurso da quarta-feira e o do sábado e ligaram o avanço da proposta à reaproximação política entre a presidência do Senado e o Palácio do Planalto, enquadrando o calendário legislativo como cálculo eleitoral do governo. Veículos de esquerda não cobriram o episódio no conjunto reunido, o que deixa sem contraponto a leitura de que a PEC seja sobretudo manobra eleitoral, e não reivindicação antiga de centrais sindicais sobre redução de jornada.
Ainda não se sabe se Caiado apoia o texto como está ou se condiciona o apoio a mudanças, nem que salvaguardas ele considera necessárias para empregadores. Também não há data para a apreciação na CCJ, nem estimativa oficial de quando a jornada de 40 horas passaria a valer caso a emenda seja promulgada. O candidato afirmou que a proposta já foi aprovada na Câmara dos Deputados e será promulgada nos próximos dias, previsão que não é corroborada pela avaliação, relatada na própria cobertura, de que o tema fica para depois das eleições.