O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, apresentou o programa econômico de campanha batizado de "Para o Brasil vencer o atraso", que reúne corte de gastos públicos, redução de impostos e uma nova regra fiscal. No mesmo período, em agenda de rua em Belo Horizonte na terça-feira, 18 de agosto de 2026, ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira (PL) e do candidato ao governo de Minas Gerais, Flávio Roscoe (PL), ele prometeu "enxugar" a burocracia do licenciamento ambiental para o setor de mineração.
O diagnóstico do documento é de que o aumento das despesas públicas volta à população na forma de juros mais altos, inflação e carga tributária maior. A partir daí, o programa propõe uma reforma administrativa com redução de pelo menos dez ministérios, corte de cargos comissionados e de despesas administrativas, combate aos chamados supersalários e revisão de normas consideradas excessivas. Para as agências reguladoras, prevê critérios técnicos na escolha de dirigentes e avaliação periódica de desempenho. Para as estatais, propõe retomar o Programa Nacional de Desestatização, analisando empresa por empresa onde a presença do Estado ainda seria necessária, e ao mesmo tempo fortalecer a Lei das Estatais.
No campo fiscal, o plano substitui as regras atuais por um mecanismo voltado primeiro à estabilização e depois à redução da dívida pública, com compromisso de superávits primários e limites para o crédito subsidiado com recursos do Tesouro Nacional. Na tributação, mantém a simplificação do Imposto sobre Valor Agregado (IVA), mas reduz a alíquota e o número de exceções, amplia a desoneração de exportações e investimentos e corta tributos sobre produção e consumo. Também propõe reduzir gradualmente os encargos sobre a contratação, sem retirar direitos trabalhistas, com regras específicas para jovens de 18 a 24 anos no primeiro emprego e para trabalhadores com 50 anos ou mais desempregados há pelo menos um ano. Os programas de transferência de renda são mantidos, com prioridade dos beneficiários em qualificação e intermediação de mão de obra e possibilidade de retorno imediato ao benefício após o fim do seguro-desemprego. No setor de energia, a proposta prevê redução gradual de subsídios que encarecem a conta de luz, corte de impostos sobre eletricidade e combustíveis e ampliação da infraestrutura de transporte do gás do pré-sal.
As coberturas divergem no que colocam em primeiro plano. Veículos de direita detalharam o programa pelos seus próprios termos, dando destaque ao contraste apresentado no documento entre a relação dívida/PIB no governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e na gestão de Jair Bolsonaro (PL), e ao argumento de que a alíquota-base do IVA aprovada poderia chegar a cerca de 30%, contra média de 19% nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A cobertura de centro ficou no registro da campanha: as falas na coletiva, a caminhada no bairro Betânia, os aliados presentes e a promessa de uma relação "institucional" com o Judiciário em um eventual governo. Veículos de esquerda não cobriram o programa no conjunto analisado, e por isso o contraditório que costuma vir desse lado não aparece em nenhuma das matérias: o efeito das desonerações sobre a arrecadação, o destino das políticas executadas pelos ministérios que seriam extintos e o risco de afrouxar o licenciamento ambiental no estado com o maior passivo de mineração do país.
O que ainda não se sabe é o essencial da execução. Nenhuma das matérias informa quais seriam os dez ministérios cortados, qual alíquota o candidato considera aceitável para o IVA, quanto custaria ao caixa a redução de encargos e de tributos sobre energia, nem quais normas de licenciamento ambiental seriam revogadas e por qual instrumento legal. Também não há estimativa de prazo para a nova regra fiscal nem avaliação independente das projeções apresentadas no documento de campanha.