O ex-chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou no circuito das apurações sobre as fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social. Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que ocupou o posto no Palácio do Planalto de janeiro de 2023 até 21 de julho de 2026, recebeu transferências bancárias da empresária e lobista Roberta Luchsinger, citada no inquérito que apura descontos indevidos em benefícios de aposentados. Os valores são estimados na casa de R$ 80 mil, cifra que não foi confirmada com exatidão, e os dados completos estão sob análise da Polícia Federal. Nem o montante final nem a razão dos pagamentos são conhecidos.
Em 3 de agosto de 2026, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro publicou um vídeo em seu perfil oficial em rede social afirmando que "o dinheiro sujo do esquema que roubou milhões de aposentados e velhinhos do INSS parece ter chegado no gabinete do Lula". Ele cobrou que as autoridades respondam por que o ex-chefe de gabinete recebeu os valores e de onde veio o dinheiro, e associou o episódio ao arquivamento da CPI do INSS e ao registro de mais de 40 visitas da lobista a órgãos do governo fora da agenda oficial.
Há convergência entre as coberturas sobre o núcleo factual. A existência das transferências foi confirmada com quatro pessoas familiarizadas com o assunto. Roberta Luchsinger prestou serviços ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, preso desde 12 de setembro de 2025, e mantém amizade próxima com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, alvo de três inquéritos, entre eles um por tráfico de influência. Marcola deixou o Planalto cerca de duas semanas antes de o assunto começar a circular em Brasília. Procurada por meio de seu advogado, a lobista disse que responderá às questões nos autos do inquérito; o Palácio do Planalto e o ex-chefe de gabinete não se manifestaram. Nenhuma decisão judicial estabeleceu, até agora, irregularidade nas transferências.
A divergência aparece no enquadramento. Veículos de direita organizaram o relato em torno da proximidade do escândalo com o núcleo presidencial, encadeando as transferências, a amizade da lobista com o filho do presidente, viagens reservadas sob o mesmo código localizador e mensagens apreendidas em operação policial, ainda que registrando ao final a ausência de decisão judicial. A cobertura de centro tratou o episódio como reação de um candidato à Presidência a uma revelação jornalística, reproduzindo as aspas na íntegra, delimitando o que segue sob apuração e recuperando o histórico do caso, inclusive a entrevista em que a lobista negou ter intermediado negócios entre o filho do presidente e o operador preso. Veículos de esquerda não deram destaque ao episódio até o fechamento desta síntese, o que configura um ponto cego: as objeções previsíveis desse campo, como a ausência de prova formal, o caráter eleitoral da acusação e o fato de o servidor já ter sido dispensado, não apareceram em cobertura própria.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há confirmação oficial do valor exato transferido, nem explicação sobre a finalidade dos pagamentos ou eventual contrapartida em decisão de governo. Também não se sabe se as transferências já integram peça formal do inquérito, se a Polícia Federal pretende ouvir o ex-chefe de gabinete e qual a versão do Palácio do Planalto, que não respondeu às tentativas de contato.