Uma disputa interna no campo de centro-direita e direita ganhou contornos mais nítidos na primeira semana de julho. O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, afirmou que o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, pré-candidato do partido à Presidência da República, disputa o mesmo eleitorado do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ambos mirando o público que se opõe ao presidente Lula. Kassab classificou a candidatura de Caiado como abrangente, por ocupar o espaço de centro-direita, e reafirmou que o PSD apoiará simultaneamente a reeleição do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, mesmo que Tarcísio esteja alinhado à pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Segundo Kassab, a campanha de Caiado é estruturada em todo o país independentemente dos governadores estaduais, e o apoio do PSD a Tarcísio em São Paulo será homologado numa convenção partidária marcada para o fim do mês.
A disputa ganhou um capítulo mais duro nas negociações sobre o tarifaço imposto pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros. Em sabatina à CNN Brasil, Caiado acusou Flávio Bolsonaro de conspirar contra a economia do país ao participar das tratativas com o governo americano sobre a tarifa adicional de 25%. Segundo o pré-candidato do PSD, a atuação do senador nas negociações, que incluiu uma reunião na Casa Branca em maio, dias antes do anúncio da tarifa, foi inaceitável, embora Caiado tenha evitado chamá-la de traição à pátria, termo sem previsão no Código Penal comum brasileiro. Caiado também criticou o Itamaraty, afirmando que o órgão passou a agir de forma ideológica em vez de manter uma política de Estado. Para o pré-candidato, a proposta de adiar a entrada em vigor da tarifa até depois das eleições de 2026, defendida por Flávio Bolsonaro, criaria uma falsa sensação de tranquilidade para a população brasileira. No mesmo dia, Flávio participou de uma audiência pública nos Estados Unidos sobre a investigação comercial baseada na Seção 301 da legislação americana e defendeu a revogação das tarifas.
Até o momento, a cobertura identificada sobre o episódio vem de veículos de centro, como Metrópoles e Notícias ao Minuto, que relataram de forma factual as declarações de Kassab e Caiado, sem que reportagens claramente identificadas com a esquerda ou a direita tenham se dedicado ao tema. Ainda assim, os fatos relatados permitem antever dois eixos de leitura possíveis: um mais preocupado com a fragmentação da oposição a Lula e com os efeitos da proximidade de parlamentares brasileiros ao governo americano sobre a economia nacional; outro mais inclinado a ler a disputa como sinal de pluralidade dentro do campo de centro-direita e direita, e a cobrar eficiência e coerência institucional na condução das negociações comerciais com os Estados Unidos.
Ainda não está claro como Flávio Bolsonaro vai reagir publicamente às acusações de Caiado, nem se o desgaste entre os dois pré-candidatos afetará a aliança entre PSD e PL em outros estados. Também não há definição sobre o desfecho da investigação americana baseada na Seção 301, nem sobre um eventual acordo entre Brasília e Washington antes das eleições de 2026.