O presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia não participar de nenhum dos debates televisionados do primeiro turno da eleição presidencial de 2026. A informação é atribuída a aliados do presidente, e a decisão, segundo esses mesmos relatos, ainda não está tomada. O tema divide a cúpula do PT no momento em que o partido se prepara para oficializar a candidatura à reeleição.
A divisão interna tem dois argumentos bem delimitados. Uma ala do partido teme que o presidente, único nome do campo da esquerda entre os presidenciáveis, fique isolado em um palco com adversários que disputam entre si o título de principal opositor, entre eles Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos. Outro grupo sustenta o oposto: os debates seriam a chance mais visível de confronto direto com o principal adversário, e abrir mão desse espaço significaria perder o único momento de comparação ao vivo entre os candidatos.
A cobertura de centro relatou os detalhes operacionais da questão. Pela legislação eleitoral, as emissoras são obrigadas a convidar candidatos de partidos com mais de cinco representantes eleitos para o Congresso, e o Supremo Tribunal Federal decidiu no ano passado que esse cálculo usa o resultado da eleição de 2022, sem considerar mudanças de partido posteriores. Por esse critério, apenas o presidente, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Augusto Cury têm presença obrigatória garantida. O primeiro debate está marcado para 16 de agosto, mesma data em que o PT pretende realizar o ato de lançamento da candidatura no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. A coincidência de agenda é apontada como obstáculo prático, já que debates exigem preparação prévia. Aliados informaram ao presidente, no dia 14 de julho, que um jogo de futebol marcado para o mesmo dia no estádio seria antecipado, o que abriu caminho para o ato.
Os dois lados da cobertura convergem em três pontos: a avaliação existe, a decisão não está fechada e a divisão no partido é real. Divergem no contexto que escolhem manter. Veículos de direita enfatizaram a divergência interna e a hipótese de que, sem o presidente, o principal adversário também poderia faltar aos encontros, deixando de fora tanto os números de intenção de voto quanto o episódio do áudio em que o senador pede dinheiro ao antigo dono de um banco, divulgado em maio. Já os elementos que veículos de esquerda tendem a destacar aparecem sobretudo na apuração de centro: a assimetria de um candidato progressista diante de quatro adversários de direita, os precedentes de 1998 e 2006, quando presidentes candidatos à reeleição também faltaram a debates de primeiro turno, e a vantagem nas pesquisas. Levantamento divulgado em 15 de julho aponta 40% para o presidente e 28% para Flávio Bolsonaro no primeiro turno, e 45% a 37% em simulação de segundo turno, com margem de erro de dois pontos percentuais.
A estratégia de campanha descrita na apuração inclui elevar a rejeição ao principal adversário com dois temas: o caso envolvendo o banco e o tarifaço do governo americano contra produtos brasileiros, associado à afinidade do grupo bolsonarista com o presidente dos Estados Unidos. O ato de lançamento, por sua vez, tem carga simbólica: o estádio da Vila Euclides foi palco de assembleias de metalúrgicos grevistas presididas pelo presidente no fim dos anos 1970.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há posição oficial da Presidência nem da direção do partido sobre a ausência, e não se sabe se o ato de lançamento será mantido no dia 16 de agosto ou adiado para liberar a agenda. Também não há manifestação pública dos adversários sobre o que farão caso o presidente não compareça, nem definição das emissoras sobre o formato dos encontros com cadeira vazia. Aliados afirmam que a avaliação pode mudar debate a debate, inclusive com comparecimento posterior caso o presidente julgue que foi muito atacado em um encontro do qual se ausentou.