O fim do prazo para o registro de candidaturas às eleições de 2026 colocou no sistema do Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, os dados dos 13 candidatos à Presidência da República, incluindo nome completo, data de nascimento, CPF e a relação de bens declarados. O retrato patrimonial que emergiu dessa lista é de forte desigualdade entre os concorrentes. No topo aparece Pablo Marçal, do PRTB, com R$ 7.418.372.569 em bens declarados. Em seguida vêm Augusto Cury, do Avante, com R$ 242,2 milhões, Romeu Zema, do Novo, com R$ 178,7 milhões, Ronaldo Caiado, do PSD, com R$ 52,5 milhões, e Wilson Grassi, do Democrata, com R$ 50 milhões. Os dois nomes mais citados na disputa ficam fora desse grupo: Flávio Bolsonaro, do PL, declarou R$ 8.186.555,83, e Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, R$ 4.775.650,64. Mais abaixo estão Clariana Barão, do DC, com R$ 1,82 milhão, Renan Santos, da Missão, com R$ 795 mil, Edmilson Costa, do PCB, com R$ 454 mil, e Samara Martins, da UP, com R$ 33 mil. Hertz Dias, do PSTU, e Rui Costa Pimenta, do PCO, informaram não ter bens a declarar.
O número que lidera a lista é o mais frágil. O próprio Marçal afirmou que a declaração disponível no sistema do tribunal está errada e disse já ter pedido a correção, mas até a publicação do levantamento a alteração não havia sido feita e o candidato não informou qual seria o valor correto. Segundo o TSE, o preenchimento dos bens é responsabilidade dos candidatos e dos partidos, e deve incluir bens em nome próprio, como casas e carros, participações em empresas, saldos em contas, poupança, ações em bolsa e outras aplicações. Além da divergência no valor, a candidatura de Marçal carrega outra pendência: em 2025 ele foi condenado pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação nas eleições de 2024, condição que o tornou inelegível por oito anos.
A cobertura de centro tratou o assunto como levantamento de dado público, organizando o ranking em ordem decrescente, registrando a contestação do candidato mais rico e explicando a regra do tribunal sobre quem responde pelo preenchimento, sem atribuir significado moral às cifras. Veículos de direita concentraram a atenção em outro eixo da mesma campanha, a segurança pública, e registraram que Flávio Bolsonaro colocou o combate ao crime organizado entre as principais bandeiras de seu primeiro ato oficial, realizado em Copacabana, no Rio de Janeiro, no domingo de estreia dos presidenciáveis. Nessa cobertura, o secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares, afirmou que a campanha petista vai disputar o tema comparando a prática das gestões, sustentando que com Lula a Polícia Federal tem autonomia para investigar e citando a Operação Carbono Oculto como exemplo de atuação contra o crime organizado. Ele também acusou o adversário de discurso vazio e de ter enfraquecido a Polícia Federal quando a família esteve no governo. A campanha do senador não foi ouvida sobre essas acusações no material publicado.
Não houve, até o momento, cobertura de veículos de esquerda sobre o levantamento patrimonial dentro deste conjunto de fontes. O argumento que o campo progressista sustenta aparece de forma indireta, pela fala petista reproduzida na cobertura conservadora: a de que segurança pública se resolve com instituições de investigação fortes e protegidas de interferência, e não com retórica de campanha. Aplicada ao ranking de bens, essa mesma chave de leitura tende a enfatizar a presença de fortunas bilionárias na disputa e o peso do poder econômico sobre a competição eleitoral, sobretudo quando o candidato mais rico já foi condenado exatamente por abuso desse poder. A leitura à direita, por sua vez, trata patrimônio declarado como informação de transparência e não como acusação, e cobra que o mesmo escrutínio recaia sobre quem construiu carreira inteira dentro do Estado.
O que ainda não se sabe é qual é o valor correto do patrimônio de Pablo Marçal e como o tribunal tratará a divergência entre a declaração registrada e a versão do candidato. Também segue em aberto o efeito prático da inelegibilidade de oito anos sobre o deferimento desse registro, já que o levantamento não detalha em que fase está o caso. Nenhuma das fontes apresenta dados de criminalidade que permitam verificar de forma independente a comparação entre governos proposta pelo PT, nem traz a resposta da campanha de Flávio Bolsonaro às acusações feitas pelo dirigente petista.